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Exercício de escrita

Estar calado

28.06.22

Estar calado também é um gesto bonito. Por vezes o mais digno de todos. Por vezes aquele que nos coloca à margem do olhem-para-mim-que-sou-tão-isto-e-tão-aquilo e sinto assim e sinto assado.

Saber estar calado é um dom, mas o silêncio individual não pode ser partilhado e repartilhado, não dá likes, não traz seguidores, não mostra o quanto sofremos com a dor alheia. Não nos deixa segurar a bandeira da justiça digital.

Somos tão tudo antes de ir pôr a sopa a fazer. Numa sapiência suprema de pôr em palavras o que os outros sentem. Um serviço público, se virmos bem.

É por isso que a desgraça alheia vem sempre a calhar, mexe com o bicho da indignação, suporta bem as palavras pesadas, mostra o quanto estamos do lado do bem, punindo-nos pelos males alheios.

Conjuga-se o verbo falhar. Falhámos todos. Eu falhei. Tu falhaste. Pois falhamos. Todos os dias.

Até no segundo em que, com o ego aos pulos, clicamos em "publicar".

Com uma pitada de civismo ir à praia seria um momento ainda mais agradável

13.06.22

Se juntarmos uma colhezinha de café de noção, uma colher de chá e bom senso e mais um cheirinho de consciência de que o mundo não nos pertence, então seria mesmo perfeito.

O nervoso miudinho começa com os carros estacionados às três pancadas que impedem a boa circulação de todos os outros, obrigando a manobras de finta para se conseguir chegar ao destino. Ultrapassados esses, então é preciso fazer razias e rabetas às sereias da praia e seus cortesãos que se pavoneiam na estrada, ocasionalmente de pranche debaixo do braço, qual Kelly Slater dos Capuchos. Lá seguem no seu compasso pairante, como quem se ergue sobre ramo de nenúfares. Atiram-se para a estrada e escancaram as portas das suas carroças aladas enquanto olham para os condutores que passam e que quase lhes levavam uma parte da chapa, explicando, só com o brilho das lentes borradas de protetor solar, que era evidente que iriam entrar e que quem está mal que se desvie, há muito espaço, mesmo que a ocupação desse espaço obrigue a manobras rápidas em contramão.

Chegados ao areal aparece um grupo musical, onde o artista DG da esquina traz uma coluna de som presa ao pescoço como uma coleira. Não estão nem aí para os outros, curtem o seu som, dançam, abanam a cachola e têm um semblante de quem, caso seja contrariado, vai subtrair uma vista a alguém com dois paus de incenso. A música, invariavelmente uma valente merda, fez-se ouvir num diâmetro razoável obrigando todos a participar de um arraial para o qual não queriam ser convidados. Mais uns lugares à frente temos o grupo de rapazes valentes, incapazes de controlar a bebida e as hormonas, levam com eles uma geleira e uma caterva de minis e vão para o areal impressionar as garinas. Estes, felizmente não aparecem sempre, são mais ou menos como a fava do bolo rei, é preciso que a pessoa esteja mesmo com azar. Mas, em cada dez idas à praia, lá estão eles, com as suas gargalhadas guturais, os seus alhos e os seus bugalhos mesmo que à sua volta estejam apenas famílias com crianças pequenas.

Chegamos aos sempre presentes: os CR7s do areal. Não conseguem dar um xuto a direito na bola, mas são uns valentes a aplicar força na esfera. A força é de facto o seu ponto forte, já que a esperteza não os acompanha. Nada tenho contra que se jogue à bola, em zonas mais afastadas das toalhas, com respeito pelo espaço dos outros. É um divertimento como outro qualquer. Mas não consigo conceber que se ande a dar biqueiros de pé bem puxado atrás, sobressaltando quem está na toalha com bolas rasantes, em risco de acertar numa pessoa idosa, na barriga de uma grávida, na cabeça de uma criança. Sim, porque os campeões da finta balnear não se preocupam se há crianças de ano a cambalear divertidas para o mar, eles têm toques para dar e pujança para mostrar.

Ainda podia continuar com gente que manda areia para cima dos outros a caminho da toalha, cães de água com pernas que não passam sem abanar a tola molhando quem está quieto a secar o seu bacalhau ou molhando as páginas de quem lê. Não me meto sequer com o cheiro a rissóis, as conversas altas cheias que obrigam quem está nas toalhas ao lado a saber que a prima Cheila sofre de hemorróidas e o marido anda com o pinto assado. Até dou de barato quem, com espaço para estar a dois decentes metros, tem de meter a toalha a vinte centímetros.

Era começar com coisas pequenas, como uma onda gigante que colhesse para alto mar um imbecil de cada vez ou arranjar um herói do areal, que trabalharia num contrato sazonal, a patrulhar a nossa costa, com calções de praia curtos e duas listas brancas de protetor logo abaixo de cada olho. O nosso incansável guerreiro do bem-estar à beira mar estaria atento aos palermas, enfiando-lhes pelo cu acima o objeto com o qual prevaricam.

Fica a ideia.

As grávidas são uma chatice.

02.06.22

Pés.jpg

 

Vomitam. Enjoam. Metem na cabeça que não comem coisas. Só papam saladinha se tiver sido passada por amukina ou demolhada em água com vinagre. Dizem que é da toxoplasmose ou lá o que é que arranjam para se pôr com esquisitices. Estão sempre enfiadas em consultas e ecografias e análises e o diabo a quatro. Falam em semanas e decoram o catálogo de carrinhos da Chicco para saberem qual das viaturas tem um abs mais adequado para não derrapar na calçada. Queixam-se que a roupa não serve e os pés incham, coisas que se resolvem depressa comprando o número acima. Não gostam do frio, mas passam mal com o calor. Passam à frente nas filas. A pessoa vai comprar dois papo secos, vê a grávida a chegar e pensa logo que está a ser castigada pelo Universo, os olhos arregalam em temor como quem acabou de ver ébola passar. Ficam sempre à espera que alguém lhes ceda a cadeira e ainda têm lugar de estacionamento privilegiado no centro comercial, como se estando elas boas para cirandar de loja em loja, não possam ficar num lugar a duzentos metros da entrada. Demoram a subir escadas. Irritam com aquele respirar ofegante e aquela frase do “deixa-me só recuperar o fôlego”. Ficam com placentas descoladas e com contrações antes de tempo. Têm de ser tratadas como nenúfares e uma pessoa tem de estar sempre com cuidados não vá as meninas ficarem sensíveis e desatarem a chorar ou a sentir-se incompreendidas. Culpam tudo nas hormonas e no momento especial. Deixam trabalho pendurado quando vão dar à luz, ou ainda pior, quando vão mais cedo para casa, coisa que não havia lá no tempo da rica mãezinha que trabalhava ao campo, paria a meio da apanha da fruta e depois de espremer a criança cá para fora ainda enchia duas caixas de Bravo de Esmolfe enquanto tinha a cria agarrada à teta esquerda. Benditas as grávidas de antigamente. Não tinham cá frufrus. Morriam mais, elas e as crianças, mas também era assim que se fazia vingar os mais fortes, a seleção da espécie. As grávidas são uma chatice, mas tirando a parte de incomodarem tanto, até são giras lá longe, com o seu andar de patas, meio metidas a especiais como se fossem a única forma de manter a espécie humana na Terra.

Querido pipi,

carta 1

31.05.22

Decidi escrever-te estas notas para que, depois de esfrangalhado, possas ocupar os teus dias de recuperação entretido a saber como andava o mundo quando estavas lá longe, à distância de um espelho do IKEA, a preparar-te para o pesadelo de qualquer passarinha. Eu compreendo a tua angustia. Um gajo se tiver de mijar uma pedrinha, chora. Uma gaja tem de passar um crânio e um par de costas por um orifício pobremente dimensionado e ainda estar bela e sociável depois disso. A família quer visitar e constatar que o recém-nascido tem as sobrancelhas do pai, as beiças da mãe e os joanetes da avó. Ah, se não fosse o convite para o jantar de natal, era tão bem que se lhes arreavam umas fraldas carregadas de merda fresca nas ventas.

Dias há em que tenho pena de não viver na Austrália. Bom tempo. Praias de água quentinha e tubarões para ameaçar o miúdo quando não arruma o quarto. Pedagogia positiva sempre, tenho-o tatuado na nalga esquerda. Mas aqui, na Margem Sul, na pior das hipóteses, digo-lhe que o atiro às alforrecas na praia da mata ou que o mando de sapatos de vela e polo da Ralph Lauren para a escola.

Tenho pena de não te escrever em inglês e poder começar este bilhete por “Dear pussy”. Dava outro glamour. 

Mas nada temas pipi. Tenho a nossa vida planeada. Para já vamos manter o #foco e apertar o períneo. Depois metemos a gaiata cá fora, e vamos ser mais nós. Vamos ficar em forma. Vamos viver para além da maternidade logo que tenhamos tratado das sete máquinas de roupa com bodies borrados. Vamos acordar cedo, vamos treinar pela manhã antes do sol nascer como as moças fit fazem e esfregar #nopainnogain nas ventas das inimigas, vamos passar creme em todo o lado sem evitar os cantos, vamos comer melhor. Até vamos comer brócolos, pipi. Tenho tudo pensado. Vamos organizar a casa. Ai pipi, quando fizermos quarenta vamos estar melhores do que a Jennifer Lopez em 1999. Sim, pipi, estamos à beira dos 39, mas vai ser nos quarenta que vamos rebentar. Vamos fazer uma festa exótica como a da Rita Pereira, mas vamos para a Fonte da Telha, em Troia não servem rissóis. Vamos inspirar, pipi. Ou pelo menos eu vou, tu não tens pulmões.

 

#queridopipi #carta1 #horadolanche

As celebridades digitais publicam aquilo que os seguidores querem ver

29.05.22

Porque são esses, em número geralmente avultado, sempre dispostos a validar as escolhas com corações e frases fofinhas, e sedentos de ir comprar tudo o que a celeridade aconselha (mesmo que diga #pub no fim), são esses que garantem os patrocínios, as portas que se abrem, os contactos das marcas, os códigos de desconto, as roupas oferecidas e por aí em diante.

Nas casas das celebridades digitais (regra geral, falo sempre na generalidade), elas estão sempre bem vestidas, a casa limpa, não há migalhas no chão, a luz está invariavelmente na posição certa para que a fotografia não pareça ter sido tirada no fundo do túnel. Os pratos de comida são especialmente coloridos e nunca borram molho nos cantos. Nas casas das celebridades digitais as crianças andam sempre bem penteadas e bem vestidas, não aparecem cagadas com o iogurte da manhã e mesmo quando fazem birra as fotografias podia estar no centro de qualquer revista de moda. A vida das celebridades digitais não cresce nas redes sociais graças à elevação do conteúdo escrito, é uma conquista por imagem. Tem mais likes quem tem a melhor imagem. Tem mais seguidores quem tem uma vida mais diferente da massa de quem os segue. Porque as pessoas não têm tempo para ler até ao fim, têm de gastar o seu tempo bem racionado com quem inspira, com boas casas, férias de sonho e roupas que que custam, no mínimo, metade do ordenado mínimo nacional.

Podem dizer-me “ah, mas deviam dar o exemplo”. Só que o exemplo não traz rodos de seguidores, não paga contas ao fim do mês, não proporciona aquela vida imaculada. A riqueza do conteúdo inteligente, se desprovido de beleza de imagem, não conquista a massa de pessoas que seguem cegamente as celebridades digitais. A massa de pessoas que acompanha as celebridades digitais não questiona a realidade do conteúdo, da mesma forma que não lê o texto se tiver mais de cento e cinquenta caracteres, a menos que tenha no inicio um alerta de GIVEAWAY e aí sim, já vale a pena porque é preciso saber as instruções para ganhar três embalagens de creme que custa os olhos da cara. Os giveaways não foram inventados para dar alguma coisa a quem participa, foram enjorcados para angariar mais seguidores para a celebridade digital, para a marca e para gerar o bendito engagement.

Ter cem mil seguidores facilita as coisas. Ter meio milhão mais ainda. Usando-me como exemplo: se eu tivesse cem mil seguidores não tinha escrito uma história na esperança de que, quem sabe, um dia, alguém olhe para ela. Teria escrito uma história com alguma certeza de que seria publicada ou quem sabe até, após ter sido convidada. E isto não é uma critica às editoras. As editoras têm de ganhar dinheiro porque têm ordenados para pagar. Isto acontece porque é preciso fazer vendas e vivemos num país onde as mesmas pessoas que acham que comprar um livro por mês é caro, adquirem um exemplar da Nova Gente todas as semanas.

(e com este paragrafo torno-me, já sei, uma invejosa, que tinha de escrever isto porque está ressabiada porque também queria e mimimi e não tem)

Isto vem tudo a propósito da publicação de uma celebridade digital (que eu nem sabia quem era até aqui) no dia seguinte a ter dado à luz. Uns fizeram pouco salientado o ridículo. Outros apontaram o dedo. Outros saíram em defesa, quais gárgulas da pátria digital. A mim não me causou nenhuma impressão a fotografia estilo reclame da Planta em 1987. Não passa de mais do mesmo. Esta publicação não é, em conteúdo, diferente das três mil e tal antes dessa. O que me surpreende é que mais de meio milhão de pessoas se interesse naquela conta, é que mais de cem mil pessoas tenha gostado da publicação e mais de cinco mil tenham comentado. Esses números sim, são reveladores, não das escolhas da celebridade, mas da sociedade em que vivemos, onde o fútil e desprovido de conteúdo enriquecedor é premiado por uma fotografia mesmo linda, daquelas que fazem lembrar as princesas. Porque quem sabe, só quem sabe, se pensarem como aquela pessoa e se usarem todos os produtos que aconselha, a vida venha a ser assim, com a mesma luz, as mesmas bancadas de cozinha imaculadas, a mesma pele lisa ao sol, debaixo de uma palmeira nas Seychelles.

A minha experiência neste planeta é apenas na ótica do utilizador, mas diz-me que as pessoas não querem saber da realidade, nem mesmo quando são obrigadas a vivê-la, quanto mais aqui, nas redes sociais, onde podem ser e sonhar com outra coisa qualquer.

Bolinhos da avó

26.05.22

Quando era miúda a minha mãe, que trabalhava em casa, na nossa casa que ficava do outro lado da rua da escola, a minha mãe vinha quase todos os dias dizer-me olá à hora do recreio. Ia nos dias menos atribulados. Ia nos dias em que as clientes não tinham provas.

Já tentei ir ver o meu filho no recreio da escola, mas por uma qualquer incompetência não dei com ele lá pelo meio.

Hoje foram fazer um passeio ao parque da vila. Uma caminhada a pé para o parque. Um dia de espiga aos tempos modernos. Uma caminhada de regresso.

Moramos perto do parque por isso disse-lhe: a mãe hoje arranja dez minutos para te ir lá dar-te um beijinho.

E fui. Peguei no tempo da minha pausa da manhã e lá fui. Dois minutos até ao parque. Dois de regresso. Meia dúzia de passos dentro do parque encontrei-o logo. Ele encontrou-me ao mesmo tempo. Mãe! Gritou lá do fundo. Correu para mim e fiz-lhe sinal para que esperasse autorização das professoras. É meu filho é certo, mas naquele momento é uma responsabilidade, também, de outra pessoa. Vai lá, vai, disse-lhe a professora. E ele correu para me dar um beijo e um abraço. São estes beijos e abraços que compensam tudo.

Os amigos disseram: olá mãe-do-Ricardo. Para eles é esse o meu nome de registo.

À tarde, quando chegou a casa, eu tinha os ingredientes dos biscoitos dele alinhados. Tudo em taças como na televisão.

Foi à cozinha.

Que é que andas a inventar?, perguntou-me.

Achei que podíamos fazer os teus biscoitos favoritos.

E fizemos. Juntos. Os dois de mãos borradas. O chão da cozinha com açúcar que não lhe pertence.

O amola-tesouras

24.05.22

Ouço lá fora a melodia inconfundível do amola-tesouras. Coisas de morar na aldeia. Volto imediatamente aos meus sete, oito anos, é verão, estou na marquise lá de casa, os antebraços debruçados sobre os caixilhos das janelas cinzentas que deixarão a minha pele cheia de vincos. Tenho o queixo pousado nas mãos e vejo carros a passar, as vizinhas na azáfama das compras, atarefadas para fazer o almoço com as mercearias que compraram no mercado da vila. Nos sacos saem pelas asas as folhas dos molhos de grelos e das alfaces. Não tenho memória de alho francês ou courgette. Devem ser legumes mais modernos.

O amola vinha numa bicicleta pasteleira muito velha. Tinha sempre a barba grande. Tocava a melodia ininterruptamente. Entrava na nossa praceta, parava no meio da estrada e tocava enquanto esperava que as senhoras descessem com as tesouras para amolar. Naquele tempo, a meio da manhã ou da tarde, havia sempre gente em casa. Não havia praceta dormitório. A minha mãe deitava mão às tesouras de costura e fazia contas à carteira. Levava as que estavam piores, as que já mordiam os tecidos.

Faz sinal ao senhor que espere que eu já estou a descer, dizia-me a minha mãe.

Mas como é que faço sinal ao senhor se ele não olha para aqui?

E lá vinha a minha mãe por trás de mim. Quando ela aparecia ele olhava para a nossa janela e acenava com a cabeça que havia de esperar. Ela descia, lesta, não se fazia esperar quem trabalha. E eu ficava em casa, da janela, a ver como aquilo se dava. Como é que o posto de trabalho de alguém era numa bicicleta.

Nesse tempo os dias eram iguais uns atrás dos outros e os acontecimentos eram se fraca relevância. Por isso, quando aparecia o amola-tesouras com a sua musiqueta era um dia que acontecia alguma coisa. As mães não tinham tablets nem telemóveis para entreter os mais novos e debruçavam-se no maravilhoso método do desemerda-te com a tua imaginação e não partas nada senão levas nas ventas.

E nós inventávamos e às vezes levávamos nas ventas.

Entretanto o amolador já foi à vida dele e eu tenho de me fazer à minha, mas estava bem agora era na varanda lá de casa, a apanhar sol nas trombas sem ter preocupação nenhuma.

Tudo bem?

23.05.22

Há um acordo tácito para aquilo que se espera de resposta à pergunta de cumprimento trivial: então, tão tudo bem?. Este acordo vive entre as pessoas que têm os berlindes todos alinhados na tola e que têm mais do que fazer. A pessoa cumprimenta e depois pergunta se está tudo bem, ou então, para aqueles mais despachados é só assim um piscar de olho e: tudo bem? Assim mesmo em andamento, que é para não perder muito tempo. Por exemplo uma pessoa está a cruzar-se com outra enquanto uma enta entrar do elevador e outra está a sair. Uma diz: tudo bem? A outra: tuuuudo. E está feito.

Dentro do elevador, entre o desconforto da chegada ao andar desejado. Uma diz: tudo bem? A outra: tudo e contigo?

Quando a pergunta é feita há, no máximo, meia dúzia de respostas possíveis: 1) tá tudo e contigo; 2) tuuuudo; 3) nada (porque a pessoa já bazou); 4) tudo andar; 5) tudo fino; 6) cá vamos andando. A opção 6 já denota alguma tristeza o que ajuda quem questiona a fazer uma curva sinuosa na conversa para garantir que não vamos enveredar pelos problemas pessoais.

O pai, o tio e o irmão da pessoa podem ter morrido drasticamente atropelados por um Smart desgovernado. O papagaio pode estar com uma hérnia discal e um raio pode ter acertado a pessoa no alto da pinha a caminho do emprego. O que se espera da pessoa é que, na pior da hipóteses, devolva o cumprimento com um: cá vamos andando.

Por alguma razão que lamento profundamente a minha capacidade de resposta para esta pergunta tem fugido ao meu controlo e dou com a minha boca a mexer-se para dizer mais coisas do que o meu interlocutor – obviamente – desejava saber. Por alguma hecatombe interna, o meu cérebro, quando face a este tipo de questão, acha que está no direito de ocupar o tempo alheio com as minhas questiunculazitas e dou comigo a falar até conseguir ver a vida apagar-se nos olhos da outra pessoa. Que é mais ou menos quando a pessoa suspira e olha para os pés ou quando olha à volta com aquele ar de socorro de quem pensa: ó crálhe, atão mas esta agora!

A minha parte racional fica aprisionadas enquanto uma outra fação libertina discorre sobre enjoos e desconfortos para apertar sapatos.

Desta feita gostaria de dizer que: a gerência pede desculpa por esta inconsistência técnica momentânea e garante que os técnicos estão a fazer todos os possível para recompor o equilíbrio neste ambiente hormonal hostil.  

A festa da Rute Carla contada pela Rute Carla

17.05.22

Olá miúuuuuuuuudas, como é que vai, tipo, isso? Espero que vocês estejam mega felizes porque eu estão a rebentar com a alegria que tenho dentro do peito, assim mesmo tipo, naquela zona entre as costelas, mesmo atrás das mamas, estão a ver?, porque tipo, na zona das margaridas eu não ocupo com mais nada para não as deixar descair.

Nos últimos dias tenho estado a esforçar-me por encontrar as palavras, tipo, certas, tão a ver?, para vos contar como é que foi a minha mega, super, híper bombástica festa. Nunca tinha organizado uma festa, esta foi a primeira e teve como tema agradecer as bananas ao Universo e ao Cosmos e às estrelas e aos astros. Porque tipo têm mega potássio e são alcalinas. Só vos digo que, se consegui fazer isto pelas bananas, nem quero imaginar como vai ser a minha festa de anos. Já estou em contacto com uma amiga minha que tem um primo que é casado com uma rapariga que é indiana e o teu dela vai emprestar-me um elefante por um fim de semana. Eu pensei, tipo: ou chego à festa na Berlingo da minha mãe, toda grafitada ou arranjo um elefante. É mais fácil orientar um elefante do que convencer a casmurra da minha cota a, tipo, emprestar a carrinha. Ela é um little chata por causa que eu não passei no exame de condução. Eu digo-lhe: cota do meu heart tem calma, eu sei conduzir, só me enervo com o senhor que me manda virar em sítios. Mas agora não vamos falar da minha festa de anos. Festa das banaaaaaaaanas, essa é que interessa.

Antes de continuar quero agradecer à Ritinha das morcelas pela charcutaria, ao Telminho da franganota, pelos doze frangos assados com batatas fritas, à @DulceShow pela música, I love a tua combinação de cheirar o teu bacalhau mix peitos da cabritinha mix levar no pacote. A minha crew tava, tipo, insane.

Malta, a festa foi tudo o que eu podia desejar e mais um bocado porque, tipo, houve coisas que a minha mãe quis lá meter na mesma porque eu amo-a bué, mas ela é assim uma beca bisbilhoteira e eu às vezes queria atirá-la de um cacilheiro, mas tipo, numa boa vibe, claro, cause eu sou híper positiva, mas era larga-la já assim perto do cais só mesmo para depois o barco lhe arrear uma bela mocada na mona, ahaha, tou a brincar, tipo, eu amo mega a minha mãe, foi ela que me trouxe ao mundo e me deu a genética das minhas curvas. Tipo, eu bebo bué batidos verdes para preservar a genética da minha mãe, tipo, uma cena ancestral e isso, tão a ver?, Ya! Então a minha mãe cedeu-me o recinto nas traseiras da nossa moradia para eu fazer a festa. Eu, por mim, tinha convidado todos os meus cinquenta e três seguidores, mas a minha cota disse: tás mazé maluca dos cornos, achas que cabem mais do que vinte pessoas no nosso quintal, otária? A minha mommy é assim, sempre a dar-me força. Então tive de convidar só a malta mais próxima, vocês entendem, e depois tirar bueda fotos para vos mostrar agora. Não fiquem depressed, juro que na próxima party vou conseguir levar-vos todos.

A minha roupa foi alusiva às bananeiras, tinha folhas de bananeira, um animal print estilo doninha em anfetaminas e até arranjei uma peruca de cabelo comprido que a minha avó tinha lá num baú no sótão do tempo em que o meu pai foi drag queen. Foi pena o meu pai ter sido atropelado por aquele smart que seguia a alta velocidade, senão hoje ele ainda ia ser a melhor drag queen de Côja.

A malta que veio à festa ficou louca com a minha roupa. E a cereja no topo do bolo, ou será que devo dizer, o pássaro no alto da minha cabeça, ahahahaha, foi o pombo que eu atei a uma bandolete para dar, tipo, mais realidade ao meu outfit. Malta, vocês nem imaginam, tinha apalavrada uma arara com um amigo meu que ia desviar a pássara no Zoo, mas à última hora a bicha apanhou Covid e eu tive de arranjar uma solução alternativa. Por isso falei com o meu tipo, que faz criação de pombos e ele disse-me: toma, leva esse cabrão com a pinta branca na cabeça, até para pombo é burro demais. Tem é cuidado que o gajo caga que se farta e merda já tens tu que chegue nessa pinha.

A minha prima Lucrécia, Lucréciiiiiinha! Tu sabes quem és! Levou cerveja e pisang ambon.

A malta curtiu a lot a musica e o mood. Estávamos mesmo numa vibe super cool. Dançámos, o meu primo Abel que teve alta dois dias antes fez um espetáculo de street dance. Tem mesmo jeito aquele rapaz, não sei porque é que os bofias o mandaram quinze dias para avaliação psiquiátrica só porque ele, tipo, estava a curtir a cena dele no meio da avenida de Ceuta e dois carros se despintaram com famílias lá dentro, é pá tipo, condutores, pay attention!

Já nem sei a que horas acabou a noite, era praí umas nove e meia. Foi por essa altura que o frango acabou, estávamos todos numa boa a contar cenas das nossas viagens de transportes para o trabalho, tipo, a Miss Valéria apanha três linhas de metro, brutal, um autocarro – AWESOME - e o barco, o Jeninho vai na carrinha do tio dele, o Tozé é que não curtiu muito, porque tá, tipo, entre oportunidades de emprego desde que o dispensaram do aviário. Eu com mega inveja deles, mas daquela boa, vocês sabem, porque ainda não encontrei a minha vibe e ando a sondar o mercado.

O que é certo é que curtimos que nem doidos.

Agora a loucura é na minha festa de anos.

Espero que estejam preparados.

#sejamfelizes

Quando eu era pequenina

13.05.22

Quando eu era pequenina a minha mãe comprava-me colares de rebuçado no mercado. Quando íamos à praia a senhora passava com bolas de Berlim, línguas da sogra e batatas fritas. Comprávamos sempre as línguas da sogra porque um pacote dava para todos. À saída da praia, a caminho do autocarro, passávamos na banca que vendia chupas de um caramelo que já não encontra agora. Uns pirolitos em formato de cone, uns com papel para proteger a iguaria da areia soprada pelo vento, outros com cobertura de baunilha. Durava até chegar a casa e ao fim do dia ainda tinha caramelo nos dentes. Quando eu era pequenina não sentia o frio do mar nem me fazia impressão a areia na toalha. O protetor não tinha fatores 20, 30 ou 50 e era sempre uma lata de metal de Nívea que se barrava quando, numa avaliação de engenharia doméstica, se concluía que o sol, se calhar, estava mais intenso. Quando eu era pequenina comíamos papo secos comprados no minimercado da frente e quando ficavam duros iam para torradas barradas em Planta que fazíamos numa torradeira com uma porta à frente e outra atrás, com uma patilha preta de lado que ficava quente demais, uma torradeira que não avisava quando o pão estava pronto, que não o tostava dos dois lados ao mesmo tempo e que faria dele um naco de carvão se não estivéssemos a tomar conta do nosso pão. Quando eu era pequenina havia dois e depois quatro canais. O desenhos animados eram poucos então viam-se as novelas brasileiras. Havia a Rua Sésamo ao final da tarde na RTP2, mas eu preferia os filmes da Disney gravados em cassetes que tinham a fita toda carcomida por ter sido mastigada tantas vezes pelo vídeo que, de quando em vez, tinha um amoque. Quando eu era pequenina inventava brincadeiras com as bonecas que tinha recebido no Natal ou no aniversário, tinham de chegar para o ano inteiro. Quando eu era pequenina passeava na avenida de mão dada com a minha mãe, ela falava-me do trabalho dela, das clientes e de flores. Conversava sem condescendência para com a idade que nos separava. Cumprimentavam-se as vizinhas pelo caminho e respondia-se a jeito a todas as intromissões. Quando eu era pequenina comia bollycao e carcaças com Tulicreme. As estrelitas e o chocapic tinham todo o açúcar que mereciam e o Nestum comia-se a seco, com um copo de leite ao lado. Assim mesmo só o farelo. Quando eu era pequenina tínhamos uma agenda verde na mesa do corredor, uma agenda que condizia com o telefone de discar. O mesmo que só dava para levar até à entrada da sala ou de um quarto porque o fio era curto. Imagino o meu filho hoje, a marcar nove números tendo de esperar que a roda voltasse ao início para inserir o digito seguinte. Lembro-me ainda hoje, de cor e salteado, do número lá de casa. Quando eu era pequenina ia brincar para a praceta e voltava quando a minha mãe ia à janela chamar por mim. Quando eu era pequenina gostava de ir passear com a minha mãe à Baixa, de apanhar o cacilheiro, de esperar que saíssem aqueles que estavam apressados para ir para os empregos, de apanhar o autocarro quando tínhamos de ir ao Largo do Rato para uma consulta. Sentia que cirandava pelo estrangeiro. Quando eu era pequenina usava saias de balão e vestidos às bolinhas, totós com elásticos que tinham caranguejos na ponta. Quando eu era pequenina a vida tinha menos logística, havia tempo para pensar, tempo de tédio, tempo para inventar, tempo para não sentir que, quando estou num sítio já faço falta noutro. Quando eu era pequenina passava grandes pedaços de tempo à janela só a ver a vida acontecer, a imaginar de onde vinham os vizinhos ao final da tarde, se os amigos iam aparecer, para onde iriam todos aqueles carros que desciam a rua principal. Quando eu era pequenina a minha mãe não combinava horas para eu brincar com outras crianças, ia para a praceta e esperava que alguém aparecesse. Quando eu era pequenina via a estranheza do mundo, mas não tinha medo dele, porque ia crescer, tudo se ia resolver, eu ia comprar uma casa e até já tinha escolhido os móveis num panfleto que tínhamos lá por casa.

 

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