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Exercício de escrita

Vinte e quatro

02.12.22

O tempo que passamos só as duas é assim: uma mão que procura a outra. A dela que quer saber-me ali, ainda dela, as duas uma só.  A minha a aproveitar que ainda é tempo de ela chamar por mim porque lhe faço falta, porque o meu colo é o melhor dos repousos.
Fazemos tarefas juntas. Eu a execurar, ela (imagino) a opinar sobre a qualidade do que está a ser feito. Um dialeto de gritinhos reduzidos a duas vogais e três consoantes. Sorrisos largos que mostram uma gengiva careca e beicinho quando a espera por colo já vai longa. Dois desgastantes minutos. Nem nas finanças se espera assim.

Colo. Conversa inventada. Sonos curtos interrompidos ao mínimo barulho para que não lhe escape pitada. Horas a dormir encostada ao meu peito e eu, deleitada, apesar do ardor nas costas, aproveito para ler ou para puxar do telemóvel e, com pouco jeito, registar as minhas notas, como estas. Umas que guardo e outras que deixo aqui.

Parece que nasceu ontem e num piscar de olhas vai-se o tempo da licença e passamos a estar juntas só uma parte do dia, como se ela já fosse uma quase adulta capaz de ir à vida dela, como se quatro meses chegassem para estar agarrado a quem esteve nove meses dentro de mim, cada dedinho, cada pestana, feitos neste corpo.

Por mais cliché que possa ser, a verdade é que estamos todos rendidos à maior das evidências: o tempo passa depressa de mais. Especialmente quando estamos bem. Parece que os ponteiros vão a correr em vez de andar.
Já se ri, já palra, vai-se aguentando numa espécie de sentada. Não tarda nada já me diz "ê conségu", tal como o irmão quando aprendeu que eu não me havia de meter nos assuntos dele.

Vinte e três

01.12.22

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Dizem que o melhor do natal são as crianças. Eu acho que são os chocolates. As crianças são o melhor do mundo a maior parte do ano, nunca esquecendo que temos de descontar o tempo em que são chatas. As crianças não nos deixam comer o bacalhau sossegados e fazem uma chinfrineira dos diabos por causa das prendas. Temos de lhes dizer mil vezes que as broas da avó não são para brincar e implicam com a comida toda pq a tradição não é pizza e douradinhos. E nem vamos falar dos brinquedos que não trazem pilhas, a criança pede para abrir a caixa e a pessoa percebe que aquilo não vai fazer os truques pq não traz pilhas, são 2 dúzias de pilhas A+ e nem sacando de todos os comandos a gente se safa. A criança começa a ferver e é por um triz que não temos de lhe espetar com 2 cascas de laranja cristalizada no bucho para as calar.

Os chocolates ficam ali, caladinhos, sedutores, com sorte cheios de licor, o que para além de ser bom, nos ajuda a aturar os petizes sem lhes arrear com o trenó do pai natal no alto da pinha para termos 2 segundos de silêncio enquanto eles ainda estão confusos a pensar de onde veio aquele dói-dói.

Adoro receber chocolates no natal, especialmente se mos derem antes da noite de natal, para q eu possa ir varrendo tudo tranquilamente. É preciso entender que os que me dão a 25 também têm de ser despachados até dia 1, pq toda a gente sabe que no início do ano se começa uma vida nova, uma personalidade nova, objetivos novos, passamos a viver de goji e pistachos e, dessa forma, as substâncias impuras não devem estar no lar. Pelo menos até 15 de janeiro, altura em que entrego os pontos mais uma vez. Por isso a pessoa bota abaixo mon cherry à razão de 3 por bica para garantir que não se estragam pq a vida está complicada e é má educação deitar comida fora.
Este pai natal, por ex., vai ser comido assim que acabar de tirar a fotografia e as minhas pernas servem bem de pinheiro já que parecem dois troncos de árvore. Falta verde, é certo, mas isso a gente mete o verde com a imaginação.

Dito isto, viram o que eu fiz?  É 1 de dezembro, falei do natal e fiz uma rabeta ao texto choninhas. Assim estilo forcada da lágrima.

 

Nota

29.11.22

A gerência informa que as amanhã não haverá publicação diária, por contas que:
- tenho 545565 fraldas para trocar;
- tenho metade da newsletter para acabar de escrever;
- há newsletter e depois já é demais de mim para aturar.

Entretanto, se quiserem, podem ler a última newsletter no link abaixo e se tiverem mesmo muitas saudades (há gente assim), recomendo que fechem os olhos e imaginem a Rita Pereira nua a meter uma embalagem de douradinhos no forno. Vão ver que vos passa logo.

Link aqui

Vinte e dois

29.11.22

Sou do tempo do MIRC mas nunca usei. Tive uma conta no HI5 a que mal acedia pq me fazia confusão falar pela internet qd podíamos estar a beber um café à beira da praia e a rir olhando para a cara uns dos outros. Nesse tempo trabalhava 6 dias por semana, sempre ao telefone, em 4 dos quais tinha faculdade até à meia noite, por isso qd tinha tempo livre queria ar, sol e pessoas em carne e osso com quem falar.

Quando conheci o Nuno ele tinha criado há pouco tempo um blog. Foi na altura em que muitas das coqueluches da escrita também o fizeram. Ele adorava, eu não entendia.
Anos mais tarde, em 2014, fechada em casa, sozinha, gravidissima, decidi criar o meu primeiro blog. Sempre gostei de escrever, mas nunca me tinha dado para este tipo de plataforma pq o que eu queria era escrever histórias. Isto de escrever sobre mim era novo. Para minha surpresa ajudou-me bastante pq, tal como desta segunda vez, me permitiu espreitar o mundo lá fora, onde há crescidos a falar de outras coisas.
Para além disso era uma forma de trabalhar a escrita e encontrar quem quisesse ler.

Depressa percebi que tenho uma tendência para chegar tarde. Cheguei aos blogs quando já quase ninguém lia. Cheguei ao Facebook quando já só se liam gritos e começava a cheirar a ranço. Cheguei ao Instagram quando foi comprado e aos poucos foi perdendo o conceito puro, passando as contas a ser manobradas por um algoritmo que quer estratificar comportamentos e fazer dinheiro. Há horas boas e más. Há periodos em que parece que estamos de castigo. Há uma clara tentativa de fazer com que se pague por posts patrocinados. Uma plataforma que já fez tanto dinheiro deixando que as pessoas acedessem ao que gostam de ver sem ser manobrado, está nisto.

Ainda assim cá vou andando, alguns dias a pensar apagar, outros (mtos mais) a mandar o algoritmo à fava e a publicar o que me dá na real gana, quando posso e me apetece. Quem gosta do que aqui se publica há de aparecer sempre e ajudar a divulgar. Um dia ainda seremos para aí uns 1500.

Ontem li o post da Susana ( @ser_super_mae_e_uma_treta ) e pensei que tudo o que ela disse me ocorre tanta vez, menos a coisa do barco, que isto aqui passa mais comboios.

Vinte e um

28.11.22

Um homem que muda fraldas é um veterano de guerra. Um bravo combatente da batalha pais-fraldas que dura há mais anos que o conflito Israelo-palestiniano.
Uma mulher que muda fraldas é só uma gaja a fazer o que lhe compete.

No domingo fomos ao IKEA. A meio do passeio a bebé começou a ficar irrequieta e o pai tirou-a do carrinho. Minutos depois borrou-se e o pai, que troca mais fraldas do que eu, pôs-se a caminho do fraldário. Bebé num braço, mochila no outro.
Pelo caminho um tapete de encanto. Com exclamações de ternura a cada passo. Ele de peito crescente convencido que a filha é a mais linda de todos. Voltou para perto de nós e a bebé borrou nova fralda. Ele lá foi, bebé de um lado, mochila do outro. Outro périplo de pasmo cheio de purporinas. No fim da volta a bebé tinha fome e fralda para mudar. Fui eu. Ninguém manifestou qualquer embevecimento. Afinal de contas sou só um mãe a fazer o seu papel.

O que mais me irrita nisto é que esta surpresa de óós e que-lindos vem de outras mulheres e não de outros homens. Esses, das duas, uma: ou veem um gajo a fazer o que também fazem, logo não há novidade; ou acham que estão a olhar para um palerma que não soube entregar a criatura à profissional competente.

Isto arrelia-me porque nós, mulheres, continuamos a compactuar demasiado com esta ideia de que os filhos e a cozinha nos estão carimbados no corpo e que eles, quando fazem a parte deles, são umas relíquias. Podem ser, mas não é por isso. E o mal disto é que, inadvertidamente, passamos a ideia aos nossos filhos de que está certo assim. Não está. Tenho uma filha e um filho e quero que ambos saibam que os seus papéis são iguais e não ditados pelo seu género. Já não estamos na caverna, eles não saem par caçar gnus.

Sempre que falo disto lembro-me de um episódio antigo. Tinhamos começado a viver juntos e a minha sogra mandara lá para casa uma iguaria qualquer. Quando devolvemos a caixa a senhora achou que estava gordurosa, então chamou-me para me dar o alerta, ao qual respondi: se não está bom fale com o seu filho, é ele que lava a loiça lá em casa. A senhora, no meio do seu espanto horrorizado, nunca disse nada ao menino dela.

Vinte

27.11.22

Conta-me mais daquelas tuas histórias engraçadas, mãe.
É o que ele mais me pede depois de pão com manteiga e iogurtes.
Não são as peripécias que merecem ser contadas, a minha vida é por demais costumeira e aquilo que tem valor de menção pouco de alegria tenho para lhe apontar. É a forma como lhe relato aquilo que aconteceu, como meto pelo meio uns pozinhos de palermice, que o encanta.

Digo-lhe: se olharmos com atenção, há poucas coisas mais divertidas do que a vida. Basta que olhemos com os olhos certos e que nos demos ao trabalho de encontrar a ponta solta que nos faz rir.

O sentido de humor é crucial à sanidade mental, à capacidade de encaixarmos o mal estar que a vida proporciona, à inevitável realidade de que tudo o que é bom acaba e tantas vezes mesmo na altura em que nos estávamos a divertir mais.

Conto-lhe a história do francês que ensandeceu no avião, da mulher que escrevia abacate com agá, do dia em que entrei no gabinete médico e estava um velhote de cu ao léu à espera da uma injeção.

Ele ri e pede mais.

Conto-lhe de quando vinha à praia com a avó Zé que está no céu, de como ficávamos sempre na praia da bola de Nívea, de como íamos de autocarro e das guloseimas que ela comprava à senhora que se arrastava pela praia com um saco de plástico gigante com batatas fritas e pacotes de línguas da sogra.

Falo-lhe de quando era pequena, porque é uma desculpa para lá voltar, ao tempo em que ser uma sereia ainda era possivel; porque é assim que lhe vou dizendo: aquela senhora ali, a do bolo fofinho, era a avó, consegues vê-la um bocadinho?

Dezanove

26.11.22

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Bob vs peúgas encardidas. É a melhor legenda que consigo arranjar para esta foto.

A experiência diz-me que tratar os cães como bebés faz com que eles acreditem que são, de facto, bebés. A experiência, os sete livros de treino que comprei (e li) e o curso de treino básico que fiz. Ainda assim, apesar de toda a teoria, insisto em infantilizar os cães, o que faz com que depois, quando tenho mesmo um bebé em casa, eles se comportem como quem pensa: espera lá, que é isso que trazes aí? O bebé sou eu. Mas atão!

O Bob anda pela casa atrás de mim, senta-se nos sítios mais estapafúrdios, faz-me ir contra ele como quem esbarra numa rocha que nasceu, inesperadamente, no centro da casa, cheira a fralda da bebé e olha-me nos olhos, desalentado, num lamento que parece dizer: em que canil é que arranjaste esta? Já viste que se borra toda em casa, não é aqui como o menino que se guarda para um bom arbusto?

Cá em casa parece que toda a gente tem défice de atenção. É o que diz o Nuno quando me vê a andar de um lado para o outro com a Inês ao colo, o Ricardo atrás a falar de pokemons e o Bob a seguir-nos quase esperançoso que eu me deslargue da bebé para andar a embalar-lhe o lombo de um lado para o outro repetindo um: quem é o menino da dona, quem é? Enquanto lhe vou dando a chuchar umas rodelas de chourição.

Dezoito

25.11.22

Não sei que estratagemas as outras pessoas usam para lidar com a aspereza da vida, para continuarem a andar apesar do que lhes acontece e daquilo a que assistem no mundo. A pobreza, a fome, os miúdos sem família, os sem abrigo aos cantos da capital, os velhos sozinhos em camas de hospital, as maleitas várias, as crianças doentes, os que ficam sem casa, os que este natal vão dizer aos filhos que só têm amor para dar, as guerras, a maldade pura.

Eu gozo com o que me mete medo, gozo para o amiudar, porque sou fraca e choro quando vejo aquilo que jamais devia acontecer mandasse eu no universo, no cosmos e no que mais para aí há. Apresentasse eu um daqueles programas da tarde e já estava atafulhada de medicação para a tola.

Quando não estou a fazer pouco, estou a negociar. Negoceio muito com o nada. Ofereço a minha privação disto e daquilo em troca de que nada falte aos miúdos, em troca de que a vida vá continuando pelo menos como está. Digo: se eu ficar aqui 5 horas sem telefone, televisão, livros ou qualquer outra coisa que me dê prazer, a olhar para o nada, piscando o mínimo possível, a miúda não tem febre. OK? Ninguém responde e eu: Ok, então. Porque toda a gente sabe que quem cala consente. Depois a miúda não faz febre e eu assumo que funcionou, o negócio correu bem. É para repetir.

Faz-me falta um carro novo, uma casa com jardim. Mas depois vem o medo de que com isso chegue um dissabor para puxar o tapete e eu digo para o nada: quero a casa e o carro, mas o resto tem de ficar como está, com os miúdos suficientemente bem para darem cabo de mim exclusivamente pela via de serem chatos.

Sinto que me falta sempre qualquer coisa e essa sensação de insatisfação descansa-me em vez de me arreliar, porque tenho medo que venha o dia em que está tudo perfeito. A sorte não parece gostar de coisas perfeitas, quando as vê puxa o pano e deixa-nos de coração ao léu.

Não sei como é que as outras pessoas fazem para lidar com as agruras da vida, mas eu vou dizendo para o nada: olha que esta merda podia estar melhor. Tenho a ideia que os clientes eternamente insatisfeitos levam sempre o melhor prato, que mais não seja porque quem os atende já está farto de os aturar.

Dezassete

24.11.22

Detesto incomodar. Detesto sentir que estou a ocupar espaço na vida de outra pessoa, como uma pedra que está a forçar a sua entrada no sapato. Detesto impor as minhas necessidades, perguntando se podem fazer isto ou aquilo por mim, deixando as pessoas numa posição chata de ter de dizer que não.

Habituei-me desde miúda a fazer as coisas por minha conta, se conseguisse conseguia, se não conseguisse é porque não era para ser. São más experiências passadas, somadas ao orgulho e ao receio de me colocar numa situação desconfortável. É um bolo em camadas de incómodo. A falta de jeito para pedir, o saber que estou a ocupar espaço e o mau estar que me causa quando do outro lado me deixam bem claro o peso do meu pedido.

Por isso quando terminei o meu manuscrito em junho só pedi cá em casa para ler. E pedi porque é quem mais me incentiva e porque nunca se sabe se sou a próxima J. K. Rowling e, por obrigações de matrimónio, tenho de dividir as mais-valias. Então não se pode queixar de ler meia dúzia de páginas.

Tive pessoas muito simpáticas que me desejaram sorte, que me disseram que se precisasse tinham quem lesse, que me deram contactos. Agradeci e disse: deixa lá estar, eu vou marrar com isto sozinha.

Acabei a levar na cabeça em casa, porque não pode ser assim, porque tenho de aproveitar quando alguém tenta ajudar. Eu nada.

Passaram-se quase seis meses, matutei muito e decidi chatear duas ou três pessoas, pedir uma opinião a quem percebe alguma coisa disto das palavras e das histórias. Ter opiniões sinceras e duras sobre o que está feito. Fiz umas mensagens sem jeito. Custou-me bater à porta como os funcionários da tv cabo e dizer: vim importunar, posso?

Tive sorte, ou a maturidade tem-me ensinado a ler melhor quem me rodeia e vou dando comigo a encontrar gente de uma generosidade que não sei se mereço.