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Exercício de escrita

Tanta Gente, Mariana e As palavras Poupadas, Maria Judite de Carvalho

Livros de 2022

17.01.22

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Os livros, quando são tão bons quanto este, deixam-me com menos palavras. Acho sempre que o que quer que diga sobre eles ficará aquém daquilo que merecem.

Não conhecia a obra de Maria Judite de Carvalho e hoje lamento, porque teria gostado de já a ter lido antes.

Agradeço ao Plano Nacional de Leitura e ao blog Ministério dos Livros pela recomendação. Vou certamente gostar muito de ler os restantes volumes.

Do volume I gostei particularmente dos contos A vida e o sonho, A avô Cândida e A mãe.

É desarmante a forma como os personagens são retratados. Gente de carne e osso, com características verdadeiras, daquelas que sabemos ter e não que embelezamos com palavras elegantes que fazem de nós menos abjetos para o mundo. A gente que povoa as histórias de Maria Judite de Carvalho é gente com quem nos cruzamos, gente que é boa e má num só, porque não há perfeitos e imperfeitos. Adoro histórias assim, escrita como esta, que me faz parecer que as personagens podiam ser pessoas que conheço com sentimentos que podiam ser meus naquele contexto.

 

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#5

Microconto

15.01.22

Quer dormir. Não consegue. A noite parece-lhe infinita. O colchão requintado não ajuda. As palavras sussurradas, debitadas por uma aplicação, de nada servem. É a cabeça que não se deixa apaziguar. Diz para consigo, num misto de negociação e ameaça: dorme desgraçada, amanhã tens de te levantar cedo e depois não tens miolos para nada. Espreita o relógio. Tarde para o sono recomendado. Cedo para acabar com o suplício de espera. Os sons da casa são mais altos assim. Conhece-os todos. Cada ranger de móvel. Mais duas voltas para a direita. Três para a esquerda. Basta.

Senta-se na cama. A mente parece-lhe oca. Diz até mais logo à cama, voltarão a conversar, é certo.

 

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A vida e os apontamentos sobre ela

#7

09.01.22

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Se há sítio onde gostava de morar era aqui, nem me importava que fosse apartamento na mesma, com um quintal destes. É sempre este o pensamento que me ocorre dois minutos depois de começar a andar pelo parque das nações. Gosto daquilo tudo. Tanto que nem me apercebo do cheio nauseabundo que por vezes aromatiza o ar quando a maré está baixa. Gosto dos prédios mais perto do rio, que são mais baixos, me parecem mais recatados, fugindo àquele design de galinheiro para humanos em que andam a investir nas construções mais recentes.
Venho de lá sempre com pensamentos imobiliários. O que é que eu preferia: uma vivenda com piscina ou um T3 daqueles num condomínio? Quando por lá estou e nas horas que se seguem fico neste impasse imbecil, já que não tenho conta bancária desafogada para me lançar a qualquer das hipóteses sem que tivesse de prescindir de todos os pequenos e microscópicos luxos a que me permito.
Fica o passeio. E o suspiro conformado de remediada.
O miúdo veio de lá todo borrado depois de andar a trepar “montes”. Eu descontraída porque estava em sonhos imobiliários e tenho uma embalagem nova de Skip em casa. Uma pessoa se não confia no Skip não confia em nada. Olhava para ele e só me parecia que tinha passado manhã nos Fuzileiros. Coisa boa da sua mãe.
Bebi um descafeinado por euro e dez e estive quase para lamber a chávena porque a este preço a pessoa até as borras devia levar para casa. Pior que isso só os quatro euros que uma vez paguei por um sumo de laranja em Cascais. Mas os citrinos devem ter sido apanhados à mão por uma princesa belga, espremidos por uma donzela e tratados por você enquanto aguardavam uso. O que é de qualidade paga-se, já se sabe.
Levámos o Bob. Regalou-se. O que o bicho gosta de perceber que vai de pandeiro tremido para algum lado. Agora está aqui a dormir, ressona enquanto escrevo, parece um porco, benzadeus. 

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#4

Microconto

08.01.22

Saiu do trabalho à hora certa. Mesmo a tempo de apanhar o metro seguido do comboio. Mesmo a tempo de chegar à porta da escola antes do limite do tempo. Ia abraçar o filho, iam conversar no carro, ele ia dizer-lhe que tinha brincado muito no recreio, ela ia contar-lhe sobre a senhora na estação que levava um cão pequenino na mala.

Chegou ao pé dela cabisbaixo. Não lhe quis dar um abraço. Entrou no carro e não disse palavra. A meio do caminho ela perguntou-lhe se estava triste. Ele respondeu: porque é que vieste mais cedo? Estava a terminar uma brincadeira e tive de sair a meio por tua causa.

As mães estragam tudo.

 

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A vida e os apontamentos sobre ela

#6

07.01.22

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A menina tem asma, faz-lhe bem grandes temporadas de praia. Este verão levem-na à praia. Isso e natação, que também é bom para abrir a caixa. E foi assim, depois da mezinha do médico, que os meus pais me inscreveram na natação. Foi assim que se marcaram férias para agosto, passadas em casa, com saída de manhãzinha para ir à praia e estar de volta ao carro antes do meio dia. É que quando eu era miúda não se punha protetor solar aos miúdos. Nem aos miúdos nem aos graúdos, já agora. Seguiamos cedo para a praia e saíamos antes que relógio batesse as 12, porque a essa hora é que a coisa vinha de lá tipo laser e uma pessoa tinha que se proteger. Havia uma lata de Nívea que se barrava de vez quando na cara depois de uma avaliação amadora ao tempo. Ainda me lembro dos meus pais a abanar a cabeça, indignados, quando chegavam famílias à praia àquela hora.
Era aqui, em Sesimbra, que fazíamos praia. Porque na Costa as ondas era bravas, eu ainda tinha medo do mar e não se podia nadar em condições.
No princípio usava bóia, mas entretanto aprendi a boiar, a dar braçadas e por essa altura já ia ao mar como se fosse uma segunda casa e a minha mãe, arrepiada coitada, olha a menina que se vem uma corrente ainda a leva.
Em Sesimbra nadávamos como patos atrás do meu pai. Íamos bem para o fundo, até onde havia barcos. Um dia ainda subimos para um, convidados pelo dono.
As melhores memórias da minha infância foram passadas nesta areia. Ou na areia que estava cá antes desta. É o mais provável.

 

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Princípio de Karenina, Afonso Cruz

Livros de 2022

06.01.22

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É difícil apontar qual é a pior coisa que nos pode acontecer na vida, mas diria que passar por ela sem a ter vivido deve estar no topo da lista. É lamechas, bem sei. Está taco a taco com o apreciar das pequenas coisas, também sei. Mas não há como fugir ao que é verdade.

Deixar que os medos, os receios e o comodismo nos roubem aquilo que só podemos ter uma vez sabe a desperdício.

Esta história de Afonso Cruz é, para mim, sobre isso. Para mim porque já se sabe que as histórias, como as músicas, dizem alguma coisa de especial e diferente a cada pessoa que as lê.

Esta é a história de um pai que conta uma vida à sua filha. Há um filho que aprende o mundo como o pai lhe ensina. Uma mãe frágil. Uma esposa eficiente. Um amor que entra sem ser convidado e que muda aquilo que o mundo representa.

Uma história tão bonita para começar as leituras de 2022.

Aqui ficam algumas das frases que sublinhei para poder voltar ao livro e saber de onde me recordo de as ter lido:

“O som do Outono ouve-se com os sapatos. Quando as solas partem as folhas secas das árvores”.

“Os anos são eficazes a passar.”

“Mas a vida que vale a pena ser vivida precisa de desequilíbrio.”

 

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A vida e os apontamentos sobre ela

#5

05.01.22

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L de lost.

Perdida e desanimada me confesso. Não sei se é do frio, se é da chuva, se é do mês, se foram os chineses ou o rabanete, mas sinto-me qualquer coisa que não consigo adjetivar adequadamente. É como se estivesse numa espécie de impasse. Como se tivesse tirado uma senha e nunca mais chega ao meu número. Como se tivesse passado as últimas duas semanas do ano numa espécie e hibernação mental e agora entra um ano novo e está tudo parado. Racionalmente nem eu me entendo. É como se estivesse à espera de ver coisas a acontecer e não se passa nada. Tenho vontade de fazer alguma coisa, mas nem eu sei o quê. Já fiz bolo no fim de semana. Já fiz exercício para não começar isto sedentária. Já me agarrei a um livro novo que estou a adorar. Mas nada. Pareço aqueles cães que quando ouvem a palavra bola perdem as estribeiras e já ninguém os agarra. Eu sinto que o meu cérebro está à espera que alguém atire a bola para correr atrás dela. O meu cérebro está assim, entretido a fazer analogias de merda como se pode ver. E a dizer às mãos para as escrever como se isto interessasse a alguém.

 

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A vida e os apontamentos sobre ela

#4

02.01.22

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Gosto quando a casa cheira a bolos. Dá-me um aconchego que vocês nem sabem.
Ontem vi esta receita. Pensei em fazê-la um dia destes que é como quem agenda no outlook da cabeça para fazer uma coisa um dia e depois já sabe que nunca mais lhe volta à memória, já que a tola por melhor que seja só dá pop-ups quando lhe apetece.
Hoje entrei na despensa e tinha uma laranja, logo uma, a quantidade certa. Mesmo a pedir. Pensei: nem é tarde nem é cedo. Pus mãos à obra.
O miúdo não não passou cartão. Come mindcraft. O marido, ai que comprei pão fresco e tal e tal. E eu, capaz de o comer acabado de sair do forno, sentei-me no sofá à espera que arrefecesse porque se há coisa que uma pessoa não precisa em altura nenhuma é um destempero.

A forma não é tão bonita como a da Filipa Gomes mas também está bem composto. Eu cá acho.


A receita está no site do 24 Kitchen. Bolo de laranja inteira.

 

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Noites azuis, de Joan Didion

Livros que li

01.01.22

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Honestidade. Esta é a palavra que me ocorre quando penso neste livro. O discurso é ocasionalmente desconexo. Não há um fio condutor claro, mas há sentimentos que persistem. Umas vezes medo, outras a dor da perda, um certo nevoeiro que atenua a dor e deixa que as memórias entrem para que quem desapareceu possa ainda estar presente por breves instantes. A irregularidade do texto enaltece a franqueza com que foi escrito. A necessidade de contar um sentimento sem a preocupação de polir as palavras.

Já abraço muitas vezes o meu filho. Sempre o fiz. Somos assim, pessoas de abraços. Eu só com ele. Ele com todos os que gosta e mais ainda comigo. Enquanto lia este livro abracei-o ainda mais. Precisava de lhe sentir perto. De saber que tenho o cheiro dele bem gravado em mim.

 

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Venha 2022

Votos de bom ano novo

30.12.21

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Achei sempre que cabia mais qualquer coisa. Que se calhar, com tudo o que tinha, ainda podia acrescentar ao malabarismo. Se ao menos a agenda permitisse. E eu, por hábito ou casmurrice, ia tentando fazer o tempo elástico. Se me levantasse mais cedo ou deitasse mais tarde. Se desse um jeito aqui ou ali. Como se o que conseguia fazer ficasse sempre aquém de uma expectativa inalcançável que só eu definira, nem sei bem quando nem como.

Este ano pensei muito nisto. Nesta minha insatisfação, no porquê de ela existir, na falta de sentido em mais uma ideia e outra e outra que invariavelmente levavam a cansaço e frustração por nunca me parecer chegar onde quero estar. Foi por isso que a determinada altura parei e desliguei tudo o que me entrava olhos adentro. Era preciso sossegar a cabeça e pensar no que quero e no que vale a pena.

Ganhei tempo e qualidade. Escolhi melhor aquilo a que dou atenção. Deixei de me exigir uma pilha cada vez maior. Passei a concentrar-me num montinho pequeno para que o completasse com dedicação e atenção.

Mais devagar vejo melhor à minha volta.

Planeei um 2022 com poucas linhas para ver se chego ao fim de pelo menos uma. Quero ir fechando janelas em vez de bater a todas as portas. Aprender a contentar-me com o que consigo, ainda que trabalhe para mais.

Por isso para 2022 não tenho resoluções. Tenho os desejos costumeiros: saúde para mim e para os meus, sorte que sem ela nada se faz, dinheiro que não compra felicidade mas encomenda muita alegria.

O resto vai-se fazendo. Sem pressão. Já dizia a Doris Day: Que sera, sera, whatever will be, will be.

Tenho um projeto que quero concluir, palavras para escrever quando puder e conseguir, bocadinhos de tempo que quero para descansar e ver o miúdo crescer.

 

Venha 2022 com capacidade de aproveitar o que de bom a vida ainda vai tendo para dar.

 

Um bom ano para todos, que o vivam com saúde, tranquilidade e meia dúzia de tostões que cheguem para mais do que remediar. Que parem para olhar para as pequenas coisas, porque essas – lamento o cliché – são mesmo aquilo que faz isto tudo valer a pena.

 

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