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Exercício de escrita

Apontamentos natalícios

21.12.21

O Natal está à porta e eu não tenho vontade para comemorações.

Não apetece acender as luzes da árvore e só o faço porque sinto que devo essa magia ao meu filho.

Cansa-me pensar em prendas. Já nunca penso muito. Quando calha, vinho e chocolates para os adultos. Para as crianças brinquedos. Para aqueles que ainda não têm filhos, mas já mandam no nariz que chegue para que não me arme aos cágados a comprar o que não sei se gostam, são corridos a envelopes com dinheiro.

Detesto prendas por obrigação e as do natal sabem-me sempre a isso. Menos as das crianças, essas são um regalo todo o ano.

Não tenho fome de bacalhau, nem de couves, nem de bolo rei, rainha, príncipe, visconde ou outro qualquer título dessa estirpe.

Sinto-me murcha e o que me rodeia como que numa onda de letargia com cobertura de alegria forçada, porque o natal é amor e harmonia e eu-meto-esta-felicidade-goela-abaixo-nem-que-seja-a-última-coisa-que-eu-faço.

A chuva só piora as coisas, deixa tudo mais cinzento. Os gritos no trânsito. Um quase desespero por chegar primeiro que os outros como se os compromissos de uns valessem mais que os dos restantes. As filas intermináveis. O centro comercial atestado de gente onde quase se podem ler os balõezinhos em cima da cabeças: vou comprar para me sentir feliz.

Porque o dinheiro não traz felicidade, mas embrulha e deixa levar num saco bonito de marca cara. E a pessoa sente-se melhor por momentos, eu sei disso, também já trouxe uns e enquanto estavam na mão parecia que trazia ali alegria pendurada.

E nem vamos falar das mensagens para impingir perfumes em promoção.

 

O Natal está à porta, sinto que estou em câmera lenta quando tudo circula a mil à minha volta e eu não consigo acompanhar. Não consigo agarrar o espírito espevitado de natal. Nem aquelas cantilenas de cassete gasta me deixam mais nostálgica. Soa-me a barulho de fundo.

São muitas coisas que não se alinham. Os natais encantados de um lado. Os solitários do outro, com quem não tem ninguém e os que até têm, mas ganharam senha para ficar em casa. Cumprimentos do bicho.

Se calhar sou eu que penso demais nas coisas. Devia sair da minha cabeça e entrar no shopping, é capaz de se estar lá melhor.

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