Bolinhos da avó
Quando era miúda a minha mãe, que trabalhava em casa, na nossa casa que ficava do outro lado da rua da escola, a minha mãe vinha quase todos os dias dizer-me olá à hora do recreio. Ia nos dias menos atribulados. Ia nos dias em que as clientes não tinham provas.
Já tentei ir ver o meu filho no recreio da escola, mas por uma qualquer incompetência não dei com ele lá pelo meio.
Hoje foram fazer um passeio ao parque da vila. Uma caminhada a pé para o parque. Um dia de espiga aos tempos modernos. Uma caminhada de regresso.
Moramos perto do parque por isso disse-lhe: a mãe hoje arranja dez minutos para te ir lá dar-te um beijinho.
E fui. Peguei no tempo da minha pausa da manhã e lá fui. Dois minutos até ao parque. Dois de regresso. Meia dúzia de passos dentro do parque encontrei-o logo. Ele encontrou-me ao mesmo tempo. Mãe! Gritou lá do fundo. Correu para mim e fiz-lhe sinal para que esperasse autorização das professoras. É meu filho é certo, mas naquele momento é uma responsabilidade, também, de outra pessoa. Vai lá, vai, disse-lhe a professora. E ele correu para me dar um beijo e um abraço. São estes beijos e abraços que compensam tudo.
Os amigos disseram: olá mãe-do-Ricardo. Para eles é esse o meu nome de registo.
À tarde, quando chegou a casa, eu tinha os ingredientes dos biscoitos dele alinhados. Tudo em taças como na televisão.
Foi à cozinha.
Que é que andas a inventar?, perguntou-me.
Achei que podíamos fazer os teus biscoitos favoritos.
E fizemos. Juntos. Os dois de mãos borradas. O chão da cozinha com açúcar que não lhe pertence.