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Exercício de escrita

Dezembro

Conto

01.12.21

O Bublé, com a sua voz doce e encantadora, cantava I’m dreaming of a white Christmas, as prateleiras do supermercado estavam carregadas de chocolates caros com caixas vermelhas enfeitadas com pintas brancas para imitar a neve e eu estava ali, na fila para as caixas rápidas, que já foram rápidas e agora parecem mais lentas que as outras. No tempo em que as pessoas ainda se preocupavam em roubar o trabalho à senhora da caixa, no tempo em que tinham medo de passar pip-pip a sua própria salada pelo scan, no tempo em que tinham medo de se enganar nas contas ou pena de não ter alguém com quem reclamar o aumento dos preços, nesse tempo as caixas rápidas eram uma brisa. Meia dúzia de corajosos. Agora toda a gente sabe mexer com aquilo. Impacientam-se é certo, mas não mais do que já bufam quando esperam cinco minutos na fila para passar com o carrinho atestado.

Pensei ter visto uma caixa vaga e aproximei-me para confirmar que tinha um papel à frente, Temporariamente indisponível. Porra. Volta aos calcanhares. Espera.

De regresso ao início da fila dei com dois amigos/amantes/colegas/namorados/ou qualquer coisa que não me interessava. Estavam cheios de pressa, tanta que viam o mundo por cima dos meus ombros, como se eu não estivesse ali. Miragem de salada em mãos. Moviam-se de um lado para o outro, numa agitação entre os pagamentos em cartões e os pagamentos em numerário. Ponderei, engalfinho-me com os petulantes que se fazem de míopes, ou encolho os ombros e deixo passar porque o pior que se pode arranjar é uma discussão com um estúpido que tem a mania que é esperto. Espera, não tinham aberto umas caixas novas, ocorreu-me de repente. Espreitei, duas livres. Arranquei com a velocidade de uma chita. Quando pousei as compras e cliquei em iniciar olhei vitoriosa por cima da máquina, procurei os amigos/amantes/colegas/namorados ou qualquer coisa que não me interessava para lhes mostrar que era mais esperta e ia ganhar aquela corrida. Para meu lamento, assim que virei costas uma lesma acabou de pagar e abrira uma vaga. Pus-me atenta, ia ganhar aquela competição. Pip-pip, não encalhes, não digas para aguardar pelo assistente que te arreio uma mocada, vá lê o cartão depressa. Já está. Obrigada e volte sempre. Pego no saco e confirmo. Acabei primeiro.

Passei pelos dois de peito feito, vencedora, medalha de ouro dos jogos olímpicos das caixas de supermercado.

O Bublé já se calara e agora Chris Rea preenchia as ondas sonoras com o seu Driving home for Christmas.

Faço isto. Às vezes. Pequenas conquistas de merda que ninguém dá conta. Campeonatos organizados, geridos, jurados, alimentados pela minha cabeça na pequenez desta imbecil existência.

Na última caixa uma velha gritava com a rapariga que lhe tinha feito a conta, Ladra, gritava-lhe, Queres ficar-me com o dinheiro. Aparentemente a moça passou um brinquedo do neto duas vezes. A velha, em vinha de espírito de Natal, ofendia-a, como se o erro não pudesse ser corrigido, como se quem serve aos outros nascesse ensinado, como se nunca, em nenhuma das rugas que lhe marcavam o rosto, tivesse cometido a mais pequena gralha. É assim, quando os erros dos outros, por mais pueris que sejam, se lhes aparecem à flor da pele, todos somos santos, cheios de dedos indicadores, moralistas de bancada.

Puta da velha, quem lhe arreasse com um tarolo no alto da mona era pouco, pensei para comigo. Imaginei a velha a tombar depois de um pedaço de madeira vindo de lado nenhum lhe rachar o crânio. Imaginei-a com um fio de sangue a escolher pela têmpora direita, o cabelo pejado de laca manchado do vermelho do interior daquele saco amarfanhado feito gente e ela, ai Jesus, ai Jesus, e eu a rir satisfeita pelo castigo divino.

Passada a porta do centro comercial, paz sonora. Encarquilhamento dos nervos. Um frio de rachar. Acelero o passo. Não se está bem em lado nenhum. Da janela o sol mentia, dizia que estava simpático para um passeio, mas quando chegávamos à rua era como uma partida, o frio apanhava-nos pelas costas e deixava-nos o nariz gelado e a pingar.

Mais uma porta. Cartão. Elevadores.

Detesto elevadores, não só porque podem cair de pisos altos e desfazer-se em papa, não só porque em caso de encravanço me podem deixar ali, suspensa entre o nono e o décimo à espera que alguém desaparafuse aquilo e me apanhe lá de dentro, mas porque a espera me esgota. A conversa de circunstância de que ninguém gosta mas toda a gente faz, como se o silêncio espetasse fartas nos olhos, como se o balançar de pernas e o consultar das redes sociais fazendo-nos ocupados não fosse bastante para consumir aquela meia dúzia de minutos terríveis.

Boa tarde, diz-me a voz do corpo que se aproxima. Com a sorte que uma pessoa tem só podia ser este, ocorreu-me. O tagarela de serviço, o sabe tudo, o acha-coisas, o homem das soluções que só arranja trabalho aos outros, o não-me-contestem-que-amuo, o zero-capacidade-de-síntese que fala mais de meia hora e não se aproveita um caralho do conteúdo.

Boa tarde, como está, perguntei, idiota e sabida de que uma pergunta retórica não cairia naquele goto para escorrer na medida certa.

Bem obrigada a preparar o Natal tudo enfeitado muito bonito não é a preparar o ano novo para o ano vamos ter muitas coisas novas e otimizações e melhorias. A voz monocórdica sem pausas ou oscilações, como se debitasse palavras coladas umas às outras. A boca a mexer e a minha cabeça abanar como aqueles cães de brincar no tablier dos carros. O prédio a parecer o Empire State Building. Deviam mandar pôr umas músicas de Natal no elevador, discorria animador, não achas, perguntou-me quando saímos. Ora aí está uma ideia a explorar, não lhe escapa nada, disse-lhe já a voltar costas. Nada não me escapa migalha. E lá foi, mão direita no bolso, braço esquerdo a dar a dar, desengonçado sobre as ossadas. Nem se apercebia que os lábios se lhe mexiam para verbalizar pescadinhas de rabo na boca.

A tarde passou entre meia dúzia de chamadas e três tarefas que espreitei e adiei por mais uns dias. À minha volta sonhos e filhoses trazidos por este e por aquela, boas festas, fica aqui, amanhã estou de férias, vou sair um pouco mais cedo, depois compenso. Quem é que quer trabalhar no vinte e três? Quem é que quer trabalhar no vinte e quatro? Quem é que quer trabalhar? Ninguém. Menos ainda quando cheira a mesa posta e iguarias da avó feitas pela tia que foi a única filha que deitou mão à receita.

Saí agora. A fila não está pior. Devo chegar daqui por uma hora. Disse ao Whatsapp. Dois vistos. Lida.

As vantagens das tecnologias. Nem precisamos de um chip no cachaço, somos nós que queremos que os outros saibam onde estamos a cada instante. Assim avança-se o jantar, vai-se pondo a mesa, a miúda vai tratando dos trabalhos. Ele chega mais cedo, trabalha a minutos a pé de casa.

Os vinte quilómetros para casa nem os vi. Vieram-me à ideia os pingarelhos natalícios que ia comprar e não comprei. A sala pouco vermelha. A toalha de mesa. Não comprei outra por isso ia usar aquela branca com folhas de Poinsétia, que as pessoas conhecem como Estrela do Natal, mas eu, desde que me entreguei ao mundo das plantas, conheço o nome de registo.

Sempre compraste salada, perguntou o Whatsapp.

Sim. Comprei salada. E comprei bifes, daqueles cuja pele é feita de embalagem porque assim não parecem pertencer a bicho nenhum. Ganhei uma medalha nas caixas rápidas e deixei para trás dois petulantes que nem deram por mim. Sou uma vencedora.

Assim que o trinco desprendeu a porta ouvi o meu nome, Mãe. Estava na sala debruçada sobre os cadernos. De joelhos na cadeira. Um sapato atirado para casa lado. A mãe já vai.

Passei na cozinha, deixei a salada, pousei os bifes, entreguei um beijo rápido a quem fazia o jantar e arrumava a loiça lavada que salta da máquina para as prateleiras mais aquela que nunca se chega a guardar porque está sempre a servir. Olá, disse, está a fazer os trabalhos, perguntei. Sim, está empenhada e quer que vejas.

Olá filhota, como foi o teu dia, perguntei com a frase alongada pelo abraço. A Luísa escreveu na minha borracha e a Sara não me deixou brincar à apanhada no recreio. Lamento, respondi-lhe sem ser capaz de lhe dizer como resolver de forma inteligente aqueles desaguisados infantis que hoje lhe parecem do tamanho do mundo e amanhã continuarão a parecer. Sei disso porque ainda me lembrava da Natália, que fazia pouco dos meus ténis da Guimarães quando ela usava Converse verdadeiros. Ainda me lembrava e ainda naquele momento, trinta e tantos anos depois, a dia e meio do Natal, desejava que alguém lhe tivesse enfiado uma sapatilha no cu. Não me ocorreu nada que não envolvesse segurar a cabeça da pequena facínora pelos cabelos e arrear-lhe com a cara na carteira da escola meia dúzia de vezes. Por isso repeti, Lamento, e desconversei para um, O pai diz que estás muito dedicada a fazer os teus trabalhos, posso ver?

Os às pareciam ós e os pês pareciam quês e eu não lhe pude dizer que por mim apagava tudo e fazia como devia ser, porque a aprendizagem hoje é positiva e devemos elogiar as conquistas por mais pequenas que sejam.

Está ótimo, filha. Vejo que estás a melhorar a olhos vistos.

Arrumados os cadernos na mochila. Posta a mesa com os individuais manchados. Tocou a campainha. Espreitei. Era a chanfrada do segundo frente, a dos gatos. Todos a conhecemos como a-dos-gatos, ainda que ela também tenha um cão.

Não sabemos nada dela. Se é boa ou má pessoa. Sabemos que tem seis ou sete gatos e isso chega para que o resultado matemático entre o que eu faria e o que tu achas que deve ser feito dê igual a lunática.

Abri a porta desconfiada. Ocorreu-me que me viesse tentar impingir um felino apelando à candura da época. Despontou-se-me como de um pop-up se tratasse o pedido da miúda, que se desfazia em argumentos para ter um gatinho cor de laranja como o da Maria lá da escola, que se chama cenourinha e gosta muito de brincar com as bonecas, tanto que lhe deixou duas Barbies descabeçadas.

Boa noite vizinha, está tudo bem, perguntei numa solicitude matreira de quem não quer oferecer ajuda.

Boa noite, está tudo bem obrigada, espero que convosco também. Lamento vir incomodar à hora de jantar, mas já se sabe que é a esta hora que as pessoas estão em casa.

Temos muitos vizinhos reformados, esses devem estar em casa mais cedo. Disse, rindo-me em excesso da minha própria tirada.

Sim, com esses não é preciso falar, aliás é mesmo por causa deles a minha visita. Como sabe o prédio é antigo e uma parte dos inquilinos são idosos. Alguns não têm filhos e outros têm, mas estão longe e não vêm passar o Natal. As viagens de avião ficam sempre pela hora da morte por esta altura.

Lá isso é verdade, confirmei. Não me digam que a gaja quer que eu fique com um ou dois velhos na noite de vinte e quatro. Não. Mas é que não mesmo.

Pensei em fazer alguma coisa bonita, continuou. Podíamos organizar uma troca de prendas e fazer uns postais uns para os outros com mensagens animadoras. Acho que os ia deixar felizes.

Detesto almas boas, pensei. Especialmente porque me fazem parecer uma víbora insensível. Já me tinha lembrado dos vizinhos, do Natal, dos rostos à janela na noite de vinte e quatro, fortes contra o frio, a perscrutar cada janela, quem sabe para rever ali, na caixa que cada nova família ocupava o que já se havia passado na casa que agora era feita de paredes e vazio, com meia dúzia de luzes postas por hábito ligadas à ficha para piscar só para um par de olhos cansados. Mas nunca me ocorreu fazer nada porque a vida nos dá desculpas para tudo. Porque há correria, porque há trabalhos, porque há a lida, porque não apetece e vejo o tempo a galgar em direção ao dia em que serei eu à janela, com uma casa desabitada de afazeres, à espera de sentir no que pulsa em lar alheio o que um dia já se passou no meu.

Podemos-mãe-podemos, perguntou logo a pequena saída do esconderijo com uma solicitude que deixei de ter quando a inocência se foi esvaindo de mim.

Podemos, respondi num suspiro.

No vinte e quatro arrumei a mala mais cedo. Feliz Natal, vou saindo, depois compenso.

Fizemos sonhos com a receita ditada pela minha tia ao telefone. Tentei estender filhoses, mas não quero falar delas. Recortámos cartões de Natal e a pequena escreveu a frase principal. Lá dentro mensagens que eu não sabia que tinha para escrever.

Às sete, quando os meus pais, a minha irmã e os meus sogros começavam a subir as escadas, deram connosco porta a porta, com um pratinho de iguarias forradas a açúcar e canela e um monte de postais feitos em casa por quarenta e sei anos de mãos. Quarenta meus, seis de quem ainda desenha as letras com o encanto de cada curva.

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