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Exercício de escrita

Madalena - parte 6

18.07.21

Entristecido e nitidamente receoso da minha reação contou-me que tinha decidido, em conjunto com os pais, que o melhor para a sua vida profissional era que fosse passar um ou dois anos a trabalhar no estrangeiro. O pai tinha alguns conhecimentos em Londres e ia ter acesso a um estágio remunerado. Era uma forma de construir currículo e de abrir horizontes. Os pais achavam – dizia ele – que ficar anos em Portugal à espera de uma boa oportunidade não seria o melhor investimento para ele. Era importante que o fizesse saído da faculdade, sem mulher, filhos e a hipoteca de uma casa para pagar. Era jovem e sem amarras.

Recordo-me de o ouvir sem dizer uma palavra, guardei para mim o quanto me magoava compreender que, ao contrário do que eu estava disposta a fazer, ele tinha prioridades mais importantes do que estarmos juntos. Um namoro à distância não me fazia sentido, pelo afastamento e pela possibilidade de conhecer outras pessoas, mas mais ainda porque isso faria das minhas inseguranças feridas abertas impossíveis de sarar enquanto nos mantivéssemos como um casal. Ele queria mais. Eu não estava disposta a arriscar. Propôs-me que nos visitássemos uma vez a cada três meses, tinha falado disso com os pais e eles ofereceram-se para ajudar pagando os bilhetes para que o filho estivesse feliz.

- Não. Tu precisas de abrir os teus horizontes e talvez esta seja uma boa oportunidade para eu também abrir os meus. Acho que deve acabar aqui. – disse-lhe, parecendo mais convicta do que estava. Nunca tinha falado comigo sobre a possibilidade de ir viver para fora do país e isso magoou-me. Mas, naquele momento eu não conseguia ver o que estava de errado com a forma como ele procedera, só via as minhas falhas, a mulher que não acreditava poder ser, o homem com mundo em que ele se transformaria e em como, a breve prazo, passaríamos a ser pessoas com histórias tão diferentes.

Despedimo-nos com um beijo no rosto. Um beijo doloroso. Amargo na garganta, onde fazia força para conter as emoções até que pudesse virar costas.

Quando me voltei não olhei para trás uma única vez. Perdi a força nos joelhos depois de virar a primeira esquina, tudo o que eu tinha planeado na minha cabeça tinha sido apagado em minutos.

Refizemos o caminho que percorrêramos vinte anos antes. Desta vez eu não tinha um nó na garganta, estava livre de arrependimentos e não lamentava o que quer que fosse.

Dissemos adeus mais uma vez com um beijo no rosto, uma festa no braço e um “vamo-nos vendo no Facebook”.

A mulher era uma excelente pessoa, uma esposa dedicada e uma mãe extremosa. Uma daquelas pessoas que se esforçam para fazer da vida dos outros um sítio melhor, contou, confirmando o que eu achara quando a conheci. Apesar disso o casamento tinha chegado ao fim. Não sentiam nada um pelo outro enquanto homem e mulher, mas não queriam sujeitar os filhos a uma separação, quinze dias na casa do pai e outros quinze na casa da mãe. Então tinham acordado que aceitariam que cada um tivesse uma vida fora do casamento. Sabia que a Carolina mantinha um relacionamento com um piloto da TAP, alguém que ela conhecera dos tempos em que trabalhava como assistente de bordo. Ele teve um caso fugaz com uma colega de trabalho e agora não tinha ninguém.

Toda a história me pareceu ao mesmo tempo absurda e enternecedora, que duas pessoas se dispusessem a colocar em suspenso a construção das suas vidas pelo bem dos filhos. Por momentos senti-me egoísta, porque não ter pensado mais nos meus filhos quando decidimos, eu e o Miguel, que os nossos caminhos seguiriam separados.

A vida fora de casa, em família, coincidia com aquilo que podíamos ver nas redes sociais: um casal que se mantinha apaixonado, dois filhos lindos, uma casa de sonho, férias de perder a cabeça e até um cão que parecia acabado de sair de uma revista. Os amigos não sabiam. A família não fazia ideia. Eram um casal modelo.

- Estás muito calada – disse-me quando se apercebeu que eu já não falava há mais de dez minutos, limitando-me a assentir com a cabeça. Estava a encaixar toda aquela informação, mas não tinha lugar nos armários do meu sistema racional.

- Estou a processar e a perguntar-me se este café acontece porque achas que eu posso ser uma segunda pessoa na tua vida.

- Ainda tenho sentimentos por ti. Descobri isso quando nos reencontrámos. Acho que é recíproco. Podíamos matar saudades. Tu também tens a tua vida, tens os teus filhos.

Era um homem perdido, preso a conveniências muitas e queria que eu participasse para lhe dar alguma cor e alegria, aquilo que não conseguia com tudo o que construiu de acordo com as regras do livro de costumes.

- Não é para mim. Se me conhecesses melhor, saberias disso. Tenho muitos defeitos, mas não sou mulher de andar escondida.

Abanou afirmativamente a cabeça enquanto sorria. Compreendia, tinha pena, mas era claro que compreendia.

Pediu mais uma cerveja. Um pedi mais um café.

Falámos dos nossos filhos. Trocámos peripécias. Fizemos um resumo rápido das nossas vidas e deixámos de fora todos os pormenores que se vão desvendando quando se constrói tempo lado a lado.

Fui buscar os miúdos à escola. Pediram-me para jogar Playstation. Deixei. Peguei no telemóvel e percorri novamente a conta de Facebook do Francisco. Ainda não estava crente de tudo o que ouvira. Só aparências. Pena, foi o único sentimento que me aflorou. Desta vez, apesar da perfeição das fotografias que constavam daquele algum, preferi as do meu, essas retratavam mesmo a minha vida. Com cessões, muitas.

No sábado levantei-me cedo. Preparei as mochilas dos miúdos e vesti a minha roupa de treino. O Miguel mandou-me uma mensagem a dizer que tinha tido um pequeno imprevisto com o carro e que por isso ia chegar um pouco mais tarde. Peguei no tablet dos miúdos e preparei o meu treino online. Tinha comprado halteres e um tapete de chão. Fazia vídeos do Youtube e sentia-me uma velha caduca capaz de cuspir o coração quando o treino ainda ia a meio. Não tinha roupas a combinar como as moças do Instagram, tinha os calções velhos do Miguel e uma t-shirt manchada de ameixa.

Avisei os miúdos do atraso do pai. Disse-lhes que ia estar na sala a fazer o meu exercício. Se precisassem de alguma coisa deveriam chamar por mim.

O Miguel chegou quarenta minutos depois da mensagem. Quando chegou o mais velho disse-me aflito:

- Já é o pai? Preciso mesmo de ir à casa de banho mãe. É urgente. Pede ao pai para esperar.

Tinham estado a jogar, sempre na ânsia de mais uma partida, então tinha-se aguentado até que eu o mandasse desligar. Agora não conseguia segurar mais.

Carreguei no botão do intercomunicador:

- Olá, tudo bem?

- Tudo. Eles podem descer. – por regra o Miguel não subia. Tocava à campainha e os miúdos desciam.

- O Tomás teve de ir de urgência à casa de banho. Querem vir cá acima? Bebem um café enquanto esperam um bocadinho. Ou querem esperar no carro?

Vi-o pelo intercomunicador, a olhar para a rua, a ponderar. Segundos depois respondeu:

- Subo.

Nem me apercebi da resposta no singular. Quando abri a porta espantei-me ao ver o Miguel sozinho. Convidei-o a entrar e fechei a porta.

- Então a…a…desculpa, nunca me lembro do nome.

- A Lídia. – disse sabendo que eu tinha aquele lapso de memória de propósito.

- Sim.

- Eu e a Lídia…não funcionou. Por isso, sou só eu.