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Exercício de escrita

Maria de La Salette com dois tês, como...

20.04.21

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...gostava de esclarecer, penteava a cliente agastadíssima com a entrevista da princesa.

- Já viste aquela pobre coitada? Tinha a vida dela, era estrela de cinema, homens e homens aos pés, casou-se a pensar no conto de fadas e depois fazem-lhe aquilo. Tadinha.

Judite deixava a cabeça ir com a escova porque as escovagens eram tão bruscas que sentia o escalpe a fugir-lhe.

- Ó Salinha, faz é menos força na escova filha, que perdes a cliente se fico careca, amor.

- Ai desculpa Judite, tens razão. Fico assim com as injustiças. Tu sabes c’agente tem penado muito com isto da pandemia. Dei comigo - debruçou-se para confessar a clandestinidade em surdina ao ouvido de Judite - a ir a casa de clientes para lhes dar um corte ou um desbaste. Eles sofriam com cabelo a mais e eu com dinheiro a menos. Mas sabes, uma pessoa vive com pouco, a pessoa é que sabe da sua vida, não tem castelos nem joias, mas vive feliz. E depois é quando vejo estas coisas que penso cá para mim: Maria de la Salette da Cruz Gonçalves Pacheco, ainda bem que não caíste na desgraça da riqueza. Isto uma pessoa tem dois tostões e já nem sabe quem são os amigos, toda a gente quer mamar. Assim a pessoa sabe que quem está é porque quer. É ou não é Judite? - questionou enquanto, empolgada com a conversa, arreou com a escova no cocuruto de Judite. Esta última já saturada da conversa, queria a mise feita, a revista lida, a conta paga e pôr-se a andar.

   - Olha eu cá para mim - respondeu Judite passando as páginas da revista com uma violência desnecessária - muito me estou cagando para ti, para a princesa e para o dinheiro que não tenho. Gostava muito que acabasses o serviço porque eu, ao contrário de ti, lamento que não me saia a sorte grande para arranjar quem me faça o almoço, coisa que não tenho se não parares com as lérias - concluiu.

   Maria de La Salette, sem jeito, percebeu que estava a usar a escova errada há mais de dez minutos. Para estivar o cabelo precisava de uma escova redonda em vez da quadrada. Pegou no secador, carregou no botão e o aparelho não havia maneira de arrancar. Judite viu a coisa malparada. Maria de La Salete desligou a ficha, experimentou outra tripla, mas nada. Não tinha outro, os secadores profissionais eram caros e com a escassez de recursos, aquele, apesar de andar com engasganços ocasionais, tinha de fazer o serviço.

   - Não tens outro? - indagou Judite. Tinha outro, mas também estava pifado.

   Judite levantou-se com o cabelo molhado e pegou na mala para sair.

- Olha liga à princesa, o dinheiro faz-lhe tão mal que pode ser que ela te dispense algum azar para comprares maquinaria nova.

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