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Exercício de escrita

Vinte e um

28.11.22

Um homem que muda fraldas é um veterano de guerra. Um bravo combatente da batalha pais-fraldas que dura há mais anos que o conflito Israelo-palestiniano.
Uma mulher que muda fraldas é só uma gaja a fazer o que lhe compete.

No domingo fomos ao IKEA. A meio do passeio a bebé começou a ficar irrequieta e o pai tirou-a do carrinho. Minutos depois borrou-se e o pai, que troca mais fraldas do que eu, pôs-se a caminho do fraldário. Bebé num braço, mochila no outro.
Pelo caminho um tapete de encanto. Com exclamações de ternura a cada passo. Ele de peito crescente convencido que a filha é a mais linda de todos. Voltou para perto de nós e a bebé borrou nova fralda. Ele lá foi, bebé de um lado, mochila do outro. Outro périplo de pasmo cheio de purporinas. No fim da volta a bebé tinha fome e fralda para mudar. Fui eu. Ninguém manifestou qualquer embevecimento. Afinal de contas sou só um mãe a fazer o seu papel.

O que mais me irrita nisto é que esta surpresa de óós e que-lindos vem de outras mulheres e não de outros homens. Esses, das duas, uma: ou veem um gajo a fazer o que também fazem, logo não há novidade; ou acham que estão a olhar para um palerma que não soube entregar a criatura à profissional competente.

Isto arrelia-me porque nós, mulheres, continuamos a compactuar demasiado com esta ideia de que os filhos e a cozinha nos estão carimbados no corpo e que eles, quando fazem a parte deles, são umas relíquias. Podem ser, mas não é por isso. E o mal disto é que, inadvertidamente, passamos a ideia aos nossos filhos de que está certo assim. Não está. Tenho uma filha e um filho e quero que ambos saibam que os seus papéis são iguais e não ditados pelo seu género. Já não estamos na caverna, eles não saem par caçar gnus.

Sempre que falo disto lembro-me de um episódio antigo. Tinhamos começado a viver juntos e a minha sogra mandara lá para casa uma iguaria qualquer. Quando devolvemos a caixa a senhora achou que estava gordurosa, então chamou-me para me dar o alerta, ao qual respondi: se não está bom fale com o seu filho, é ele que lava a loiça lá em casa. A senhora, no meio do seu espanto horrorizado, nunca disse nada ao menino dela.

Dezasseis

23.11.22

Sente que precisa de umas ventas retocadas? Então Lisboa é o sítio para si. Venha provar os nossos doces típicos, conhecer a nossa história, andar distraído pelas ruas e levar com uma trotineta nas trombas.
Esta devia ser a publicidade para visitar a capital.
De acordo com os números registados, só em 2022, já houve quase 500 incidentes que envolveram trotinetas. Os níveis de gravidade variam, mas em vários casos o embate é de tal ordem que obriga a cirurgia maxilo-facial. Eu, que sou má-língua, arriscaria que na parte mais aguçada do mau trato está o pobre que anda a pé, descontraído na sua caminhada e não o imbecil da trotineta, que vai a 20 ou 30 km/h em cima do passeio, fazendo razias a quem está sossegado, incluindo crianças que, se levaram com uma merda daquelas em cima, nem quero imaginar a desgraça. A grande maioria dos utilizadores, segundo me apercebo, são turistas, que veem neste pais de brandos costumes gentes que aceitam tudo para os receber. Riem-se num divertimento de quem sabe que pode fazer o que lhe apetece porque ninguém lhes vai dizer nada. Quando temos sorte lá ouvimos um sorry, como o casal inglês que encontrei da última vez que fui passear a Belém, divertidíssimos, a usar o acesso de rampa para subir ao miradouro de trotinete.

Este é um dos sítios que já evito para passear, gosto de andar em liberdade e de poder deixar o miúdo correr à vontade em vez de o refrear com medo que seja colhido por um grunho que depois diz sorry quando me partir o miúdo todo.
Para já a câmara anda em conversações sobre regras de estacionamento. Algo tão básico que deveria ter sido acautelado antes de ser aceite que a cidade estivesse empestada. As empresas, interessadas em meter ao bolso a maior quantidade de dinheiro possível, assobiam para o lado e dizem que a câmara é que tem de assegurar isto e aquilo.
No meio da jigajoga é o tuga que fica, mais uma vez, posto de parte das suas cidades, já mal pode lá morar, qualquer dia só lá vai passear uma vez ao ano, de armadura e mil atenções, não vá sair de lá com o papelinho da baixa e sete ossos partidos. 

Dois

09.11.22

Coloque-se em posição de agachamento. Isso. Agora pegue no haltere com a mão direita e levante o braço acima da cabeça. Boa. Toque com a mão esquerda no calcanhar direito e faça força nos glúteos. Excelente trabalho. Este treino é ótimo porque trabalha upper body, lower body e core. Faça 5 sequências de 10. Não são mais do que 15 minutos e fica com um treino completo para o dia. Qualquer pessoa tem 15 minutos. Não há desculpas para não treinar.

Só que há. Não desculpas, mas razões. Este parece ser o discurso de quase todas as páginas de treino que encontro. Cada exercício a tentar espremer a maior parte de grupos musculares possíveis, tudo para esmifrar um treino completíssimo em menos de um quarto de hora. Até aqui tudo bem, se eu puder ficar mesmo boa em 15 minutos escuso de correr 1 hora. O problema é que não estamos a falar exatamente de 15 minutos, não é? Já que o treino até pode ser rápido, mas a logística em torno do treino é implacável. Em princípio (a menos que seja PT) não ando sempre de roupa de desporto, o que significa que, para treinar vou precisar de trocar de roupa e aqui temos logo, na boa, uns 5 minutos. Depois de acabar o treino, é conveniente - para bem do asseio e da convivência em sociedade - que tome um banho e troque de roupa para algo limpo e que cheire a lavado. Temos logo mais 15 a 20 minutos. Ora, tudo somado, já vamos em 35 a 40 minutos. Isso já é tempo mais difícil de esgueirar num dia.

Dizem que o melhor é deixar o treino despachado logo de manhã, e idealmente é verdade, mas para quem já se deitou fora de horas porque teve de preparar o dia seguinte, para quem não dormiu a noite toda porque os miúdos acordaram, não é assim tão simples acordar meia hora mais cedo. De mais a mais, as manhãs já são caóticas que chegue, a despachar pequenos-almoços e marmitas, a garantir que as malas estão prontas para a escola e que levam peúgas da mesma cor. O treino sabia bem depois desta azáfama, mas nessa altura já está a pessoa atrasada para chegar ao trabalho a horas.

A hora de almoço também é uma hipótese, mas lá está, é uma escolha: comer ou treinar. Porque existe um limite para o que se consegue fazer em 60 minutos. Para não falar que, quem tenha que se deslocar ao ginásio tem de acrescentar ainda mais uns 15 minutos para o caminho. Ou seja, nesta proposta temos fome e treino para chegar ao treino. Quando a pessoa pega nas tarefas de tarde já está de tal forma elétrica que é possível carregar um Tesla se lhe espetarmos com a ficha no reto. É experimentar.

Ao final do dia também dá, mas é menos aconselhado porque a vontade vai diminuindo. Dizem. Não é a vontade que diminui, são as tarefas que se acumulam, porque é preciso despachar banhos, garantir que os TPC são feitos e que há jantar na mesa.

Sobra aquela hora tardia antes de dormir, quando a pessoa finalmente suspira porque está toda a gente a descansar e talvez consiga ir tomar um banho sem ter filhos, tarefas ou o relógio à perna, a última coisa que precisa é de correr o risco de deixar cair a porra de um haltere e acordar alguém. Para além do que, o que sabe realmente bem, é agarrar num livro e ler meia dúzia de páginas para exercitar o cérebro ou adormecer a ver uma série enquanto se baba ligeiramente para o lado.

Dito isto, sim, os treinos são bons. Tenho muitos guardados nos meus favoritos do Instagram. Uma vez por semana, com sorte, lá faço um. Quando alguém fica com os miúdos e eu finjo não ter filhos e troco o aspirador (apesar de o chão estar uma miséria) pelos halteres.

Lá está, não há desculpas, é um facto, porque há razões e essas variam com a vida de cada um.

 

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Pôr ou não pôr as fotos dos filhos nas redes sociais

26.10.22

Os meus filhos são os mais lindos do mundo. Para mim, naturalmente. Podia passar o dia a esfregar fotografias deles na cara das pessoas até que começassem a vomitar os meus descendentes pela retina. Mas não o faço. Não o faço porque ainda não estou resolvida com esta coisa de ter as fotografias dos meus filhos nas redes sociais. Quando muito umas pernas gordas, perfil que só se vê com muito zoom, uma nuca que pode ser do filho do vizinho. Não o evito por ter medo de predadores e afins, desses tenho medo em sítios onde estão em carne e osso, mas porque não sei o que é quanto baste. Onde fica o suficiente e onde começa o uso desmedido da imagem de alguém que, apesar de ter saído de mim, na verdade não me pertence e tem direito a dizer: mãe, não quero a minha imagem espalhada pela internet afora?

Quando penso neste tema tendo a sentir-me ridícula. Falo deles, conto peripécias, não consigo evitar envolvê-los naquilo que escrevo sobre mim, uma vez que fazem parte da minha história e marcam tanto daquilo que sou. Será que não vai dar ao mesmo ou a algo muito aproximado: falar deles ou mostrá-los?

Quando este tema vem a lume fico sempre dividida: por um lado penso que pôr fotos dos filhos nas redes sociais é uma coisa cada vez mais natural, por outro parece-me excessivo, seja pela quantidade, seja porque os pais, sendo pais e não proprietários, estão a usar a imagem dos filhos sem a sua verdadeira autorização.

É complicado, parece-me. Mais ainda porque venho de um tempo em que as fotos dos filhos só eram esfregadas nas trombas de outras pessoas quando, acompanhando um cafezinho, a minha mãe metia os álbuns goela abaixo dos convidados, ou quando a fotógrafa punha a foto que lá tiráramos na montra.

Às vezes tenho vontade de partilhar mil fotos, mandar a internet abaixo em likes com estas caras maravilhosas, mas contenho-me. Pelo menos até ter os meus berlindes alinhados quanto a essa matéria.

Para já só sei que gosto que as pessoas aqui passem pelo que escrevo e não para ver os meus herdeiros.

Duas crises e uma pandemia

24.10.22

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Para o ano faço quarenta anos e por essa altura levarei no lombo duas crises e uma pandemia.
São projetos que se adiam porque a incerteza está sempre à porta e atrás dela o medo de perder tudo aquilo para o qual trabalho. Ficam em espera a casa nova com um pouco de jardim para as crianças brincarem, o carro novo, a viagem de que ando a falar há dez anos. Com sorte mantenho um emprego que me dá alguma estabilidade, mas nunca me esqueço de que o tenho com alguma sorte, já que há tanta gente com a mesma idade, o mesmo nível académico, certamente tão ou mais capazes do que eu e que são arrastados de trabalho precário em trabalho precário.

Não quero uma casa melhor a troco de que alguém tenha tenha ficado sem teto porque não conseguiu pagar a prestação ao banco. Não quero um carro novo mais barato porque alguém estrangulou as suas margens para conseguir vender.

Quero que a vizinha da pastelaria continue a ter negócio porque as pessoas podem lá ir tomar o pequeno-almoço, quero que o cabeleireiro continue a ter velhotas a fazer a mise todas as semanas, quero que os pequenos negócios que alimentam tantas famílias persistam.

Quero sentir que os preços não são manobrados nos supermercados e ter uma justificação aceitável para o aumento de alguns bens, para o sobe e desce do litro de combustível.

E para um povo com a classe média estrangulada, com aqueles de parcos rendimentos a começar a passar fome, temos um presidente papagaio e um governo em cama de conflito de interesses. Gerir um país numa pandemia seguida de uma crise não é, reconheço, pêra doce, mas agora, mais do que nunca, precisamos que quem está ao leme nos transmita confiança, não pela semântica - estamos fartos disso - mas nas ações, na gestão.
Eu preciso disso, para mim, para o futuro dos meus filhos.
Acho que todos precisamos.

Esperemos que ainda nos reste a empatia pelo outro, que consigamos ajudar quem precisa de comida, que se ofereçam as roupas que já não servem aos miúdos em vez de as vender nas muitas plataformas de vendas em segunda mão. É certo que não ficamos individualmente mais ricos, mas pode ser que assim consigamos evitar que fiquemos coletivamente (ainda) mais pobres.

 

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As redes sociais estão estranhas

17.10.22

As redes sociais estão estranhas. É, penso, um reflexo desde mundo que parece andar do avesso. As publicações oscilam, na sua maioria, entre extremos. Por um lado a perfeição, a felicidade suprema, a beleza, a superação, a força de vontade, a conquista, os sorrisos imaculados. Por outro, a desgraça, as imagens chocantes, os dedos erguidos, as indignações, os textos de repúdio sobre o repúdio do repúdio que esmifram os temas de tal forma que do assunto que lhes deu origem já não resta nada. Partilhas aos magotes, comentários acesos, dedos rápidos no gosto que acompanha a validação do descontentamento.
No meio o quotidiano esmurece, para quê mais vida banal se essa já temos fora do ecrã?
Assim proliferam os opostos: o mais belo e o hediondo.
Todos participamos para que assim seja, porque a beleza é a que gostaríamos de ter, porque o feio nos mexe com as entranhas.
Resta a falta de pachorra, de tempo, de vontade e atenção para outras matérias. Passam-se à frente os textos com mais de três linhas, não se partilha o que não se acompanha de dedo em riste, não se deixa sequer gosto porque a falangeta está já pronta para o scroll e há que despachar para ver onde é que há paraíso ou carnificina.
Poucas ou raras vezes nos damos ao trabalho de dizer, a quem nos entretém sem radicalismos, que gostamos do que nos oferecem.
Por isso aproveito esta publicação para dizer o que me tem ajudado @apitadadopai com os lanches do miúdo, o quanto gosto da @ser_super_mae_e_uma_treta que trata a maternidade por tu, do regalo que é ler o quotidiano contado pela @anasousaamorim e é pena que escreva cada vez menos, que as dicas que tiro da @senasaudaveis me ajudam a treinar, que me divirto muito com a @miss.caco , de como a @araparigadaserra é uma fofa com pelo na venta, que leio as newsletters da @lenia_rufino enquanto dou de mamar, que gosto das recomendações livrescas do @blogministeriodoslivros e que me escangalho com o @confissoesdumlivreiro . Há muita coisa boa por aqui, cabe a cada um de nós primeiro escolher e depois não ter pejo em recomendar.
E sim, isto também é sobre mim, que não quero ser instagramer, mas gosto de ter quem leia. Porque 10 é bom, mas 1000 pode ser melhor.

 

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Estamos um país de gente pouco amiga das pessoas.

01.09.22

No outro dia alguém dizia que somos um país pouco amigo das crianças, mas creio que, ainda que sendo verdade, a realidade é mais profunda.

Podia dizer-se que o problema é do governo, da oposição, das cabeças profissionalmente cuspidoras de opiniões que ocupam cadeiras no Largo do Rato, mas não acaba aí. Esses, todos os que lá estão, não são menos do que um reflexo daquilo que vemos no dia-a-dia, de pessoas que, nas suas vidas comezinhas, só olham para o seu umbigo.

A empatia parece estar em desuso. A menos que seja em comentários com emojis nas redes sociais e em quantidade de likes. E mesmo aí, só em causas desgraçadas em que o manifesto pela pena se enaltece para mostrar como cada um se condói com a dor alheia, num: olha para mim, que sofro tanto por este pobre.

Importa o eu, o eu, o eu e depois o eu. O que eu quero, o que eu preciso, o que eu desejo, o que eu mereço, o que eu tenho direito. E travamos naquilo que eu tenho dever, porque o dever obriga a algo que custa e então esse pode ficar fora da lista.

Vivemos numa constante guerra de posições, em que não se assiste ao esgrimir de argumentos informados e à análise de factos de fontes credíveis. Em vez disso transformam-se opiniões em dogmas e procura-se o porta-voz mais incisivo para transportar a mensagem.

As pessoas não conversam, porque conversar pressupõe, mais do que falar, escutar o outro. E a única coisa a que se assiste é a gente que só se ouve a si e a quem fala palavras iguais às suas.

As notícias são sensacionalistas e sanguinárias. Os jornais lutam pela capa que mais indignará quem passa. Para que fique para ler as outras letras grandes sem nunca chegar às mais pequenas. Evita-se o enfadonho. Os factos. Aqueles que permitem desconstruir a indignação que incendiará o dito envolvimento. Sem envolvimento não há comentários nem partilhas, não há um propagador de informação (distorcida ou não) para ocupar o pódio.

As pessoas procuram a lado criticável de cada notícia. A vida vai mal, vai vazia, vai sem a praia de águas cristalinas e pior do que isso, num emprego que detestam, com horas a fazer o que não lhes apetece.

Por isso importa que a Maria não estivesse feia que chegue a sair da maternidade. Que a Josefa não tenha conseguido perder o peso e já passou um ano desde que pariu. Que a saia da sicrana era curta para ir a igreja. Só se vê ladrões, assassinos e incompetentes, seguindo-se a nota de que: as pessoas são burras, votaram neles. Nota esta, frequentemente proferida por quem, tantas vezes, nem se levantou do sofá para pôr a cruzinha no papel.

A mixórdia é tanta e tão vasta que vai do momento a que se pede uma bica até à altura em que precisamos de uma ambulância para ir às urgências.

É o carro que ocupa o lugar do portador de deficiência. A mulher que vê uma grávida atrás de si e desvia o olhar para que não tenha de lhe dar a vez. O carro que se para no meio da estrada porque dava muito trabalho andar dois metros. O carrinho de compras que fica por arrumar no meio do parque de estacionamento.

Todos, à sua forma e num determinado contexto, somos reféns da precariedade das nossas condições. O médicos e profissionais de saúde que arriscam em decisões possíveis (ou impossíveis) porque o desgaste é imenso e não há mãos a medir à quantidade dos que pedem ajuda para os que os podem ajudar. Os professores que ensinam como podem, tantas vezes de opinião cerceada, porque o governo quer estatísticas e os pais querem filhos perfeitos. Os pais que desesperam para ter quem cuide dos filhos, porque as férias de verão são quase três meses e os pais mal têm os 22 dias, já que uma parte desses acabam sempre gastos para resolver burocracias, muitas delas, justamente relacionadas com os filhos.

Damos atenção superficial a tudo e não avaliamos nada com o detalhe que lhe merece. Estamos sempre com pressa para voltar para a nossa vida ou para a próxima notícia cor-de-rosa. Queremos saber o que esta página disse e o que aquela influenciadora achou. Porque se alguém achar por nós não temos de perder tempo a pensar na nossa própria posição e perceber, tantas vezes, que gastamos tempo com o que não o merece, que apontamos o dedo acusador de forma implacável sem nos colocarmos no lugar do outro.

E nesta dança deixamos de querer saber dos outros. Ou queremos, mas só se for para lhes pontar o dedo. Tem de haver sempre um culpado. E às vezes o responsável somos o aglomerado que dá pelo nome de todos-nós.

 

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O que é “envelhecer bem”?

17.08.22

E já agora o que é “saber envelhecer”? Porque, parecendo uma mesma coisa, não é bem.

Será aceitar que a cor dos cabelos vai sendo trocada pelo branco? Será o carro descapotável ou o salto de paraquedas depois dos cinquenta? Será a mentalidade de quem não se entrega ao número que o documento de identificação dita e avalia por si próprio o que está ou não capaz de fazer? Será a roupa que escolho? Será a ideia de que há coisas que já não são “para a minha idade”? Será saber apreciar um copo de bom vinho ao jantar? Preferir um jantar caseiro com amigos a uma noite de discoteca?

Lembro-me da minha avó Maria sentada na cama, umas vezes com a sua saia de fazenda e uma blusa, outras com a sua bata. O cabelo puxado num carrapito de fios finos e grisalhos. Nunca o pintou. Os olhos caídos com o tempo, o mesmos brincos de sempre. Lembro-me dela já com mais de oitenta anos, não a conheci mais nova, mas sei, pelas fotografias, que era assim há mais de vinte anos.

Quando penso na minha avó ocorre-me que: se chegar àquela idade não quero estar assim.

Era outro tempo, as meninas deixavam de ser moças para ser senhoras quando casavam, envelheciam anos depois do primeiro filho porque passavam a ser mães e quando chegavam aos quarenta era como se fossem senhoras de idade. A roupa ditava a conduta que ditava o dar-se ao respeito.

Hoje a rainha da pop faz 64 anos, veste-se e comporta-se de forma jovial, tem a pele do rosto mais lisa que a superfície dos meus armários de cozinha. Ainda assim, ao olhar para a fotografia mais recente do seu Instagram, ocorre-me: se chegar àquela idade não quero estar assim.

São exemplos de espectros opostos, o primeiro dita uma entrega completa a uma construção social antiquada, em que o número calculado em função da data de nascimento define o que pode ou não ser feito, vestido, ousado. O segundo luta contra o tempo tentando criar a perceção de que ele não passa e que, quiçá, até consegue regredir.

Nenhuma das abordagens me parece saudável e não quero nenhuma para mim. Não me vejo sentada à lareira de mantinha nas pernas envolta em queixumes de reumático, nem me vejo em clínicas num processo de estica-estica e puxa-puxa e ajeita-ajeita para parecer que sou mais nova do que os meus filhos.

Saber envelhecer, para mim – e cada um terá a sua forma de o encarar -, passa por aceitar que o tempo passa, que o corpo vai perdendo capacidades, que a biologia é incontornável e que tudo o que é novo, ou morre ou chega a velho, mais gasto, marcado em cada ruga pela sapiência que se espera de um ancião.

Envelhecer bem, para mim - e cada um terá a sua forma de o encarar -, passa por não me entregar ao número que a certidão de nascimento indica, por manter-me nova, mais por dentro do que por fora, é saber avaliar o que ainda sou capaz sem que me prenda a um número para dizer “já não tenho idade para isso”. Quem definiu afinal até que idade se faz o quê? Envelhecer bem é cuidar de mim, para manter o corpo a andar, aceitando que a imagem que vejo ao espelho levanta os punhos todas as manhãs para uma luta inglória com a gravidade. É saber que cada ruga é um sinal de que sei mais do que soube ontem. É aceitar que os cabelos ficam brancos, que os posso pintar ou que os posso deixar ao vento.

Envelhecer bem é, para mim, um misto de saúde mental e física, onde sei a quantas ando, aceito o tempo que passou e valorizo o que aprendi com os dias contados. É saber manter a cabeça disponível para aprender, sem amarras às construções sociais do que espera para uma determinada idade, é aceitar que o tempo passa sem medo de que se reflita na minha imagem, que pode ser cuidada, sem ser distorcida.

Saber envelhecer está muito mais naquilo que acontece dentro da minha cabeça do que naquilo que a pele do meu rosto diz.

 

 

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A Jennifer Lopez não aspira a casa.

26.07.21

A Jennifer Lopez não aspira a casa. Não lava a loiça. Não faz as camas. Não trata de máquinas e máquinas de roupa. Não estende nem apanha a roupa. Não se debate com falta de espaço para os sapatos, para os casacos e onde enfiar a roupa de desporto que não se consegue dobrar decentemente de forma nenhuma. Não apanha os transportes para o trabalho às sete de manhã. Já o fez, em jovem, sei-o bem porque lhe comprei há vinte anos o álbum. Ela já não vai “on the 6” para lado nenhum. Vai de Mercedes, BMW ou Bentley, qualquer um deles conduzido por um motorista. A Jennifer Lopez não leva os filhos à escola, não se apoquenta com o jantar deles nem com noites acordada quando eles chamam porque têm medo do escuro. Para isso tem lá amas que cuidam desses afazeres porque ela tem de acordar com boa pele para mais um filme, um videoclip ou uma sessão fotográfica. A própria admitiu, há uns anos numa entrevista à Ellen Degeneres, que o filho lhe tinha perguntado se seria melhor marcar uma hora na agenda dela para que pudessem estar algum tempo juntos. No mundo de quem tem posses para tal, tudo isto é normal. A JéLó tem acesso a uma vida que nós, mulheres anónimas e comuns mortais, não temos.

Há um ou dois anos recordo-me de ver um programa em que uma PT de celebridades dizia que se orgulhava mais dos anónimos que se esforçavam por ter uma vida saudável e um corpo bonito, do que as celebridades que precisam do corpo que têm para a sua profissão. Precisam dos PTs, dos cremes, das injeções, das massagens, dos tratamentos preventivos que custam os olhos da cara. Às vezes vejo aqui no Instagram pessoas que não são celebridades e que, para manter o corpo que têm, gastam centenas de euros por mês. Tal não é exequível para o comum dos mortais. Para quem tem a renda para pagar e filhos para criar. Ter 52 e parecer ter 32 pode ser uma coisa que nos espanta, mas a mim deixa-me sempre de pé atrás, especialmente quando a pessoa aos 32 tinha rugas de expressão que aos 52 não lá estão. O rosto da JéLó está mais liso agora que em 1999.

Não me interpretem mal, eu gosto muito dela, é um mulherão fantástico e quem me tira a minha JéLó no treino diário, tira-me uns vinte agachamentos, que eu penso na bufunfa dela e então invisto na minha. Mas sei que há um fosso que nos separa e que esse abismo não se resolve com #mindset #foco ou #nopainnogain .

Se eu gostava de ter um corpo daqueles aos 52? Eu gostava de ter um corpo daqueles aos 18. Não tive. Mas parece-me mais importante, conforme envelheço, aceitar que o corpo muda, que mostra a passagem do tempo e trabalhar, dentro do que me é possível, para estar bem por mais tempo que possa passar. Parece-me mais saudável do que criar uma ilusão de juventude eterna.

Inspirador não é ver um corpo maravilhoso numa pessoa que tem acesso a tempo, treinos, produtos e tratamentos sem fim e que o assegura porque dele depende muito da sua vida. Inspirador é encontrar quem, não precisando da sua imagem, por entre as tarefas e responsabilidades do dia a dia, encontra trinta minutos para cuidar de si.