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Exercício de escrita

Vinte e quatro

02.12.22

O tempo que passamos só as duas é assim: uma mão que procura a outra. A dela que quer saber-me ali, ainda dela, as duas uma só.  A minha a aproveitar que ainda é tempo de ela chamar por mim porque lhe faço falta, porque o meu colo é o melhor dos repousos.
Fazemos tarefas juntas. Eu a execurar, ela (imagino) a opinar sobre a qualidade do que está a ser feito. Um dialeto de gritinhos reduzidos a duas vogais e três consoantes. Sorrisos largos que mostram uma gengiva careca e beicinho quando a espera por colo já vai longa. Dois desgastantes minutos. Nem nas finanças se espera assim.

Colo. Conversa inventada. Sonos curtos interrompidos ao mínimo barulho para que não lhe escape pitada. Horas a dormir encostada ao meu peito e eu, deleitada, apesar do ardor nas costas, aproveito para ler ou para puxar do telemóvel e, com pouco jeito, registar as minhas notas, como estas. Umas que guardo e outras que deixo aqui.

Parece que nasceu ontem e num piscar de olhas vai-se o tempo da licença e passamos a estar juntas só uma parte do dia, como se ela já fosse uma quase adulta capaz de ir à vida dela, como se quatro meses chegassem para estar agarrado a quem esteve nove meses dentro de mim, cada dedinho, cada pestana, feitos neste corpo.

Por mais cliché que possa ser, a verdade é que estamos todos rendidos à maior das evidências: o tempo passa depressa de mais. Especialmente quando estamos bem. Parece que os ponteiros vão a correr em vez de andar.
Já se ri, já palra, vai-se aguentando numa espécie de sentada. Não tarda nada já me diz "ê conségu", tal como o irmão quando aprendeu que eu não me havia de meter nos assuntos dele.

Vinte e dois

29.11.22

Sou do tempo do MIRC mas nunca usei. Tive uma conta no HI5 a que mal acedia pq me fazia confusão falar pela internet qd podíamos estar a beber um café à beira da praia e a rir olhando para a cara uns dos outros. Nesse tempo trabalhava 6 dias por semana, sempre ao telefone, em 4 dos quais tinha faculdade até à meia noite, por isso qd tinha tempo livre queria ar, sol e pessoas em carne e osso com quem falar.

Quando conheci o Nuno ele tinha criado há pouco tempo um blog. Foi na altura em que muitas das coqueluches da escrita também o fizeram. Ele adorava, eu não entendia.
Anos mais tarde, em 2014, fechada em casa, sozinha, gravidissima, decidi criar o meu primeiro blog. Sempre gostei de escrever, mas nunca me tinha dado para este tipo de plataforma pq o que eu queria era escrever histórias. Isto de escrever sobre mim era novo. Para minha surpresa ajudou-me bastante pq, tal como desta segunda vez, me permitiu espreitar o mundo lá fora, onde há crescidos a falar de outras coisas.
Para além disso era uma forma de trabalhar a escrita e encontrar quem quisesse ler.

Depressa percebi que tenho uma tendência para chegar tarde. Cheguei aos blogs quando já quase ninguém lia. Cheguei ao Facebook quando já só se liam gritos e começava a cheirar a ranço. Cheguei ao Instagram quando foi comprado e aos poucos foi perdendo o conceito puro, passando as contas a ser manobradas por um algoritmo que quer estratificar comportamentos e fazer dinheiro. Há horas boas e más. Há periodos em que parece que estamos de castigo. Há uma clara tentativa de fazer com que se pague por posts patrocinados. Uma plataforma que já fez tanto dinheiro deixando que as pessoas acedessem ao que gostam de ver sem ser manobrado, está nisto.

Ainda assim cá vou andando, alguns dias a pensar apagar, outros (mtos mais) a mandar o algoritmo à fava e a publicar o que me dá na real gana, quando posso e me apetece. Quem gosta do que aqui se publica há de aparecer sempre e ajudar a divulgar. Um dia ainda seremos para aí uns 1500.

Ontem li o post da Susana ( @ser_super_mae_e_uma_treta ) e pensei que tudo o que ela disse me ocorre tanta vez, menos a coisa do barco, que isto aqui passa mais comboios.

Vinte e um

28.11.22

Um homem que muda fraldas é um veterano de guerra. Um bravo combatente da batalha pais-fraldas que dura há mais anos que o conflito Israelo-palestiniano.
Uma mulher que muda fraldas é só uma gaja a fazer o que lhe compete.

No domingo fomos ao IKEA. A meio do passeio a bebé começou a ficar irrequieta e o pai tirou-a do carrinho. Minutos depois borrou-se e o pai, que troca mais fraldas do que eu, pôs-se a caminho do fraldário. Bebé num braço, mochila no outro.
Pelo caminho um tapete de encanto. Com exclamações de ternura a cada passo. Ele de peito crescente convencido que a filha é a mais linda de todos. Voltou para perto de nós e a bebé borrou nova fralda. Ele lá foi, bebé de um lado, mochila do outro. Outro périplo de pasmo cheio de purporinas. No fim da volta a bebé tinha fome e fralda para mudar. Fui eu. Ninguém manifestou qualquer embevecimento. Afinal de contas sou só um mãe a fazer o seu papel.

O que mais me irrita nisto é que esta surpresa de óós e que-lindos vem de outras mulheres e não de outros homens. Esses, das duas, uma: ou veem um gajo a fazer o que também fazem, logo não há novidade; ou acham que estão a olhar para um palerma que não soube entregar a criatura à profissional competente.

Isto arrelia-me porque nós, mulheres, continuamos a compactuar demasiado com esta ideia de que os filhos e a cozinha nos estão carimbados no corpo e que eles, quando fazem a parte deles, são umas relíquias. Podem ser, mas não é por isso. E o mal disto é que, inadvertidamente, passamos a ideia aos nossos filhos de que está certo assim. Não está. Tenho uma filha e um filho e quero que ambos saibam que os seus papéis são iguais e não ditados pelo seu género. Já não estamos na caverna, eles não saem par caçar gnus.

Sempre que falo disto lembro-me de um episódio antigo. Tinhamos começado a viver juntos e a minha sogra mandara lá para casa uma iguaria qualquer. Quando devolvemos a caixa a senhora achou que estava gordurosa, então chamou-me para me dar o alerta, ao qual respondi: se não está bom fale com o seu filho, é ele que lava a loiça lá em casa. A senhora, no meio do seu espanto horrorizado, nunca disse nada ao menino dela.

Dezanove

26.11.22

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Bob vs peúgas encardidas. É a melhor legenda que consigo arranjar para esta foto.

A experiência diz-me que tratar os cães como bebés faz com que eles acreditem que são, de facto, bebés. A experiência, os sete livros de treino que comprei (e li) e o curso de treino básico que fiz. Ainda assim, apesar de toda a teoria, insisto em infantilizar os cães, o que faz com que depois, quando tenho mesmo um bebé em casa, eles se comportem como quem pensa: espera lá, que é isso que trazes aí? O bebé sou eu. Mas atão!

O Bob anda pela casa atrás de mim, senta-se nos sítios mais estapafúrdios, faz-me ir contra ele como quem esbarra numa rocha que nasceu, inesperadamente, no centro da casa, cheira a fralda da bebé e olha-me nos olhos, desalentado, num lamento que parece dizer: em que canil é que arranjaste esta? Já viste que se borra toda em casa, não é aqui como o menino que se guarda para um bom arbusto?

Cá em casa parece que toda a gente tem défice de atenção. É o que diz o Nuno quando me vê a andar de um lado para o outro com a Inês ao colo, o Ricardo atrás a falar de pokemons e o Bob a seguir-nos quase esperançoso que eu me deslargue da bebé para andar a embalar-lhe o lombo de um lado para o outro repetindo um: quem é o menino da dona, quem é? Enquanto lhe vou dando a chuchar umas rodelas de chourição.

Dezoito

25.11.22

Não sei que estratagemas as outras pessoas usam para lidar com a aspereza da vida, para continuarem a andar apesar do que lhes acontece e daquilo a que assistem no mundo. A pobreza, a fome, os miúdos sem família, os sem abrigo aos cantos da capital, os velhos sozinhos em camas de hospital, as maleitas várias, as crianças doentes, os que ficam sem casa, os que este natal vão dizer aos filhos que só têm amor para dar, as guerras, a maldade pura.

Eu gozo com o que me mete medo, gozo para o amiudar, porque sou fraca e choro quando vejo aquilo que jamais devia acontecer mandasse eu no universo, no cosmos e no que mais para aí há. Apresentasse eu um daqueles programas da tarde e já estava atafulhada de medicação para a tola.

Quando não estou a fazer pouco, estou a negociar. Negoceio muito com o nada. Ofereço a minha privação disto e daquilo em troca de que nada falte aos miúdos, em troca de que a vida vá continuando pelo menos como está. Digo: se eu ficar aqui 5 horas sem telefone, televisão, livros ou qualquer outra coisa que me dê prazer, a olhar para o nada, piscando o mínimo possível, a miúda não tem febre. OK? Ninguém responde e eu: Ok, então. Porque toda a gente sabe que quem cala consente. Depois a miúda não faz febre e eu assumo que funcionou, o negócio correu bem. É para repetir.

Faz-me falta um carro novo, uma casa com jardim. Mas depois vem o medo de que com isso chegue um dissabor para puxar o tapete e eu digo para o nada: quero a casa e o carro, mas o resto tem de ficar como está, com os miúdos suficientemente bem para darem cabo de mim exclusivamente pela via de serem chatos.

Sinto que me falta sempre qualquer coisa e essa sensação de insatisfação descansa-me em vez de me arreliar, porque tenho medo que venha o dia em que está tudo perfeito. A sorte não parece gostar de coisas perfeitas, quando as vê puxa o pano e deixa-nos de coração ao léu.

Não sei como é que as outras pessoas fazem para lidar com as agruras da vida, mas eu vou dizendo para o nada: olha que esta merda podia estar melhor. Tenho a ideia que os clientes eternamente insatisfeitos levam sempre o melhor prato, que mais não seja porque quem os atende já está farto de os aturar.

Dezasseis

23.11.22

Sente que precisa de umas ventas retocadas? Então Lisboa é o sítio para si. Venha provar os nossos doces típicos, conhecer a nossa história, andar distraído pelas ruas e levar com uma trotineta nas trombas.
Esta devia ser a publicidade para visitar a capital.
De acordo com os números registados, só em 2022, já houve quase 500 incidentes que envolveram trotinetas. Os níveis de gravidade variam, mas em vários casos o embate é de tal ordem que obriga a cirurgia maxilo-facial. Eu, que sou má-língua, arriscaria que na parte mais aguçada do mau trato está o pobre que anda a pé, descontraído na sua caminhada e não o imbecil da trotineta, que vai a 20 ou 30 km/h em cima do passeio, fazendo razias a quem está sossegado, incluindo crianças que, se levaram com uma merda daquelas em cima, nem quero imaginar a desgraça. A grande maioria dos utilizadores, segundo me apercebo, são turistas, que veem neste pais de brandos costumes gentes que aceitam tudo para os receber. Riem-se num divertimento de quem sabe que pode fazer o que lhe apetece porque ninguém lhes vai dizer nada. Quando temos sorte lá ouvimos um sorry, como o casal inglês que encontrei da última vez que fui passear a Belém, divertidíssimos, a usar o acesso de rampa para subir ao miradouro de trotinete.

Este é um dos sítios que já evito para passear, gosto de andar em liberdade e de poder deixar o miúdo correr à vontade em vez de o refrear com medo que seja colhido por um grunho que depois diz sorry quando me partir o miúdo todo.
Para já a câmara anda em conversações sobre regras de estacionamento. Algo tão básico que deveria ter sido acautelado antes de ser aceite que a cidade estivesse empestada. As empresas, interessadas em meter ao bolso a maior quantidade de dinheiro possível, assobiam para o lado e dizem que a câmara é que tem de assegurar isto e aquilo.
No meio da jigajoga é o tuga que fica, mais uma vez, posto de parte das suas cidades, já mal pode lá morar, qualquer dia só lá vai passear uma vez ao ano, de armadura e mil atenções, não vá sair de lá com o papelinho da baixa e sete ossos partidos. 

Quinze

22.11.22

Se for para andar à pêra chamem-me que eu apareço, agora se for para ver os meus filhos a ser vacinados não contém comigo que eu não tenho estofo para isso.

Embrulham-se-me as entranhas ao vê-los a ser picados uma e outra vez. No fim com as perninhas gordas a parecer cadernetas de cromos, cheias de pensos coloridos. Se não estiver a pensar que aquilo os salva de coisas terríveis, pego neles e corro hospital afora como uma maria ensandecida.
Choro. Choro muito. Vou logo avisando a enfermeira que choro mais do que a bebé. Da primeira vez foi pior, tiveram de me pedir amavelmente para sair da sala de vacinação. Desta vez já fui uma crescida, fiquei a um canto a verter tanta água dos olhos que mais parecia que alguém tinha feito um furo numa barragem. Comporto-me de forma infantil, o pai segura, a enfermeira dá as vacinas e eu depois pego na bebé e faço aquela cara de quem diz: pronto, a mãe agora não os deixa fazer mais mal.

É vergonhoso. O nível de palermice a que uma mãe chega.

Dou por mim capaz de pedir que a enfermeira me inocule o lombo todo para que não tenha de o fazer à bebé. Ela tem de levar 4? Dê-me a mim 12 e não se fala mais nisso. Deve passar no leite.

Se eu mandasse no universo e no cosmos e nessas coisas todas, as crianças só levavam vacinas a partir dos 14, que é quando já estamos mesmo fartos da merda que dizem e nessa altura já nem rezamos por uma enfermeira doce e meia, compramos e administramos em casa mesmo, de preferência entre os olhos.

Sodona imperatriz Inês foi hoje à vacina. Eu estou a gerir a minha ansiedade, a minha hipocondria e o meu stress pós-traumatico. Estou a vê-la dormir na alcofa, piscando a baixa velocidade, numa concentração de segurança privado treinado pela mossad, à espera da pior das meliantes - a febre - pronta para lhe dar um sopapo de paracetamol no focinho.

Catorze

21.11.22

Se eu tivesse 100 mil euros no banco ficava em casa sem trabalhar até a Inês completar dois anos. Estou certa de que, se tivessemos 100 mil euros no banco o Nuno também ficava em casa sem trabalhar por esses mesmos dois anos.

A licença devia ser assim: pai e mãe juntos pelo menos 1 ano.

Deixávamos para trás a entrada para uma casa nova, o carro mais recente e meia dúzia de roupas que tantas vezes compro para me sentir compensada por tudo o resto que me escapa por entre as mãos.

Podíamos ir buscar o Ricardo à escola, com tempo para saber como foi a manhã, para fazer os trabalhos e jogar um jogo de tabuleiro, para ir dar uns chutos na bola no jardim atrás do prédio e treinar os exercícios para a prova de aferição. Para ver com ele o Atlas e todas as coisas que descobriu, sem olhar para o relógio porque o jantar tem de andar que amanhã é dia de trabalho e de escola e é melhor adiantar coisas antes que a bebé acorde porque depois já não adianto nada.

Para que pudéssemos estar aqui para todas as gracinhas dela, logo agora que cada dia tem uma coisa nova. Para sermos os primeiros para as primeiras coisas, os primeiros passos, a primeira palavra, sem que essa seja uma alegria de quem toma conta por nós. A quem sorrimos, dizemos "ai, foi" e voltamos costas com a sensação de que algo tão nosso nos foi roubado.

Para que possamos cuidar de nós sem que o sentimento de fardo apareça, sem nos anularmos constantemente porque as crianças absorvem todo o tempo que sobra depois das responsabilidades. Trabalho e logística.

Arranjávamos tempo para uma corrida à vez todos os dias. Teríamos tempo para ler mais alguns dos livros que continuamos a comprar sem sabermos onde vamos arranjar vagar para passar as páginas pelos olhos.

Depois destes dois anos logo voltávamos à vida ativa, ao pica o boi, ao ramerame do carre para ali e anda para aqui. Mas fá-lo-iamos com outra satisfação, de barriga cheia de família e mimo.

O dinheiro sozinho não traz felicidade, mas compra tempo e com esse a gente faz muita coisa que não tem preço.

Doze

19.11.22

Nasci com 5 kg, no dia 5 de junho, às 5 da tarde. Diziam as sabichonas que se calhar vinham gémeos. Ora se havia outro, lamento informar, mas comi-o.

Nunca fui obesa, mas sempre fui tendo uns quilitos a mais. Na adolescência, com a mudança do corpo e a perda da minha mãe era na comida que encontrava alegria. Hoje sei que não comia bolos, comia a minha tristeza.

Foi nessa altura que desenvolvi o sentido de humor. Aprendi que mais vale rir do que nos apoquenta. Ficar só aporrinhado não tem qualquer efeito medicinal nem resolve o que quer que seja.

Eu era a engraçada, a que contava piadas, a que se lembrava das coisas mais inusitadas. Lembro-me de um rapaz se vir apresentar a mim e de lhe perguntar qual das minhas amigas ele queria conhecer. A assunção direta de que eu jamais poderia ser uma pessoa de interesse.

Quando entrei para a faculdade, entre curso, tabaco e três empregos part time, perdi 12 quilos, entrei para o clube dos 50s e só voltei a sair de lá (temporariamente) quando engravidei do meu filho.
Habituei-me a viver no mundo do 36/38 e tenho-me esforçado para lá ficar, porque é nessa condição que, apesar de não ter o corpo escultural que gostaria, me sinto bem.

Tenho alturas em que corro mais, outras treino em casa, outras vou mais vezes à natação. Faço desporto porque me aligeira a cabeça e por efeito secundário estreita-me o lombo.

Esta semana escrevi sobre umas calças 42, comprei-as pq as que tenho não me servem. Comprei-as de contravontade pq não quero vestir o 42. Comprei só um par pq quero o meu corpo pré gravidez de volta. Estes meses têm sido de habituação, desprovidos de rotinas, a toque de caixa de quem ainda nem segura a própria cabeça. Mas está a chegar o momento de me meter na linha, de me esforçar um pouquinho mais, de escolher melhor o que vai para o prato, de guardar as iguarias maravilha para um dia de descontração em vez de os manter na fatia mais larga da roda dos alimentos.
Não preciso porque as calças são grandes, preciso porque quero subir as escadas sem ficar cansada, porque quero fazer caminhadas e correr atrás dos miúdos sem estar sempre a dizer que já não tenho idade para isto.

Onze

18.11.22

Íamos ao pão com as moedas contadas. Comprávamos tabaco para os nossos pais. Íamos para a praceta brincar sem ter adultos a supervisionar. Se havia um desaguisado resolvia-se entre crianças nem que andássemos ao sopapo. Não nos explicavam grande coisa. Víamos novelas brasileiras, filmes de guerra, de terror e até o nove semanas e meia com o Mickey Rourke a mamar morangos com chantilly da boca da Kim Basinger enquanto lhe apertava as costadas contra a porta do frigorífico em jeitos de ela apanhar uma pontada nos pulmões. Era fácil comprar álcool a apanhar uma piela antes dos doze. Aprendemos que um dia de gazeta não precisava de greve, bastava que alguém soubesse fazer uma boa ameaça de bomba. Era a vantagem dos telefones que não deixavam rasto, aqueles que se rodava o disco e a pessoa demorava tanto a marcar o número quanto a chegar a casa do outro. Dizíamos: estou sim, quem fala? Porque era uma incógnita tão boa que de vez em quando lá havia um engraçadinho a fazer chamadas de gozo. Não tínhamos a indignação à flor da pele e as notícias eram informação e não um produto manobrado para chamar a atenção. Havia tédio e com esse tédio chegava a imaginação que, na maioria das vezes, não levava a coisas de estupenda criatividade, apenas à estupidez de experimentar o que sabíamos estar errado.

Tínhamos os joelhos esfolados a tempo inteiro, partíamos braços, cabeças e queixos, saltávamos ao elástico, jogávamos à macaca e ao final do dia víamos as notícias com os nossos pais e se interrompêssemos levávamos um calduço porque não havia box e não dava para voltar atrás e ver outra vez.

Agora roemos as unhas com o tempo de ecrã, benzemo-nos se os miúdos não leem meia dúzia de livros nas férias, fazemos-lhes as sandes até entrarem na adolescência, controlamos os desenhos animados, o youtube e não se assiste a nada com tiros nem asneiras porque se virem o Rambo ainda arrancam para a Serra da Arrábida munidos da faca do peixe para fazer o escalpe a três pinheiros.

Às vezes penso que penso demasiado sobre o que dizem os estudos, os especialistas e os livros dos especialistas baseados nos estudos.